A crítica a peça 'Toda Nudez Será Castigada'
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sexta-feira, 04 de fevereiro de 2000
Por Décio de Almeida Prado* 
São Paulo, 04 (AE) - Leia abaixo crítica de Décio à montagem de 1965 de Toda Nudez Será Castigada "O ponto de partida de Toda Nudez Será Castigada é aquela velha idéia da psicanálise (pois é: também a psicanálise começa a envelhecer) de que as reações humanas escondem geralmente em seu bojo o contrário do que pretendem exprimir. "Todo casto é um obsceno" - proclama o meneur du jeu da peça (e ao mesmo tempo o seu gênio do mal), refletindo essa ambivalência amor-ódio, atração-repulsão, que é a própria dialética de quase toda a dramaturgia do autor de Vestido de Noiva. Em outras palavras: Nélson Rodrigues voltou mais uma vez ao seu grande tema: o puritanismo. Tema que ele desenvolve pelo absurdo, mostrando o seu reverso, isto é, a inconfessada fascinação pelo vício que constituiria a natureza profunda do puritanismo. É a mesma idéia de Chuva (o conto e a peça), expressa em termos relativamente semelhantes: a paixão entre o homem que nega sem reservas e a mulher que aceita sem peias a própria sexualidade (e que pertenceriam ambos, como vimos, à mesma categoria humana).Claro está que essa analogia de situações nada significa artisticamente porque uma obra de arte se define pelos meios, não pelo assunto - e não há dois autores mais diversos, pelos processos, pelo temperamento, pela simbologia, do que Nélson Rodrigues e Somerset Maugham. Todo o primeiro ato é de uma grande ferocidade, parecendo o texto estar sempre se divertindo à custa dos personagens. Mas estes se vingam: se a peça vive dramaticamente é sobretudo porque um deles, a prostituta, se rebela contra o sarcasmo do autor, afirmando-se, com um primitivismo, uma elementariedade animal, que acaba por se impor como uma verdadeira força da natureza, para além de qualquer noção de bem ou de mal. Depois, em vez de se ater ao conflito que havia proposto, a peça começa a contar uma história muito comprida, cheia de incidentes
de padres, de psicanalistas, esvaindo-se a tensão inicial por entre as complicadas malhas do enredo. Ainda aqui, curiosamente, prevalece a dialética do contrário. Tudo deseja ser surpresa - é o rapaz que força o pai a casar-se com a prostituta, as tias velhas recebem-na de braços abertos na família, o filho foge com o ladrão boliviano - mas essas reviravoltas, essas passagens de um determinado estado para o seu oposto, em vez de parecerem um aprofundamento psicológico ou moral, se apresentam apenas como o jogo de efeitos próprio do melodrama (não faltando nem o clássico vilão). A história desfaz-se em peripécias - e para exprimir o quê? Nada. É o enredo pelo enredo, mas, mesmo nesse nível, a peça não se sustenta porque o fio narrativo acaba por se afrouxar irremediavelmente em face dos cortes e mudanças de cena desnecessários. Não há dúvida de que o teatro moderno dá inteira liberdade ao escritor, mas isso não o dispensa de organizar o seu material. Nélson Rodrigues, em suas últimas peças, não parece estar mais pensando em termos de teatro: limita-se a contar a história, episódio após episódio, narrativamente, como se palco não exigisse um mínimo de concentração dramática. Tais defeitos ressaltam ainda mais na encenação de Ziembinski (muito boa sobre os outros aspectos) porque o tempo da peça e o da representação não coincidem: o dramaturgo procede através das síncopes, de exposições rápidas, enquanto o espetáculo se demora em contemplar longamente cada detalhe, como se tivesse a maior significação humana. Em jargão de fotografia, um trabalha com instantâneos, o outro com poses. Cleyde Yaconis torna a prostituta uma criação inesquecível, sempre colada ao papel, sem um instante em que a atriz não se sinta possuída por esse monstro de humanidade rudimentar imaginado por Nélson Rodrigues. Luís Linhares não é menos convincente como o puritano roído pela sensualidade (embora, no espetáculo de estréia, não se fizesse ouvir pela metade do público, defeito de ordem técnica certamente sanado nas representações posteriores). Nelson Xavier, apesar do seu inegável talento, deixa transparecer em demasia a influência de Ziembinski. Ganharia certamente se representasse em 78 e não em 45 rotações. Aparecem bem, em papéis menores, José Maria Monteiro (o delegado) e Silvio Rocha (o psicanalista). O coro das tias solteironas, chefiado por Elza Gomes, obtém o efeito grotesco desejado. O rapaz - Endo Gonçalves - fica para ser apreciado em outra peça
quando tivermos oportunidade de decidir se os maneirismos são dele mesmo ou do personagem. Fisicamente, é uma espécie de Jean Marais jovem. Cenário de Napoleão Muniz Freire simples, mas efetivo. * Esse texto foi publicado no jornal "O Estado de S.Paulo" em 24 de outubro de 1965


