A criação do homem e a morte de Deus
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quinta-feira, 29 de julho de 2010
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Quem quis ser como o autor da vida para os cristãos, o diabo, foi segregado pela eternidade. Todos os que se juntam a ele também são condenados não só pelo poder divino, como sofrem o julgamento humano. Este sim cruel. Uma lógica que leva a esperar o pior para alguém que tentou matar Deus.
O pensamento e a sentença predominantes do século XIX e que visões fundamentalistas ainda mantêm em facções os que defendem a fé contra a ciência, exageram ao declarar a guerra de Charles Darwin (1809-1882) a Deus.
Autor de uma das mais fantásticas viagens científicas ao propor a Teoria da Evolução por meio da seleção natural e sexual, o naturalista britânico no livro ''Origem das Espécies'' revolucionou a biologia e desafiou dogmas da igreja.
''Criação'' (Creation, Reino Unido, 2009), filme do diretor Jon Amiel (em cartaz no Com-tour), entra na intimidade de Darwin (Paul Bettany), penetrando não só em sua mente admirável num bombardeio de fé e razão, como no coração do homem, que sofre com a morte da filha Annie (Martha West) e um casamento em colapso, com Emma (Jennifer Connelly).
Para alguns, o roteiro de John Collee, baseado em livro de Randal Keynes, esbarra no drama familiar de um homem e pai, derrubando o personagem da ciência. Mas é aí que está a graça de uma boa história, dissecando todos os músculos dos mitos, encontrando as vísceras da miséria humana.
Sem se perder nos flashbacks, ''Criação'' conta como foi o doloroso percurso do naturalista ao escrever o livro em que, para o bem ou mal, a morte da filha o levou a uma crise de fé.
Casado com uma prima, alguns dos filhos de Darwin sofreram de doenças, temor expresso em seus textos sobre acasalamento entre indivíduos de linhagens próximas.
Conhecimento que potencializa o drama no longa, que mostra o amor de pai do naturalista como um dos protagonistas. Ao contrário de Emma, esculpida pela interpretação de Jennifer, com um recato amoroso.
A fotografia de Jess Hall leva às belas imagens que acompanham os conflitos psicológicos, emocionais, de fé e o histórico Darwin na lendária viagem no navio Beagle e a passagem pela Argentina. Outros personagens, o biólogo Thomas Huxley e o botânico Joseph Hooker, apoiadores das teorias darwinistas também aparecem no filme.
O vazio que a existência humana assume ao contestar os planos de Deus é uma loucura que a direção explora. Um buraco que até o próprio Darwin tem dificuldade para sair, tentando subir pelas próprias reflexões que só fazem aumentar o abismo propondo que a natureza seleciona pela sobrevivência e o homem pela aparência - esta vitimou o naturalista, levando-o a escrever o obra em segredo, temendo as críticas de herético.
Darwin do diretor Amiel também diz que toda crise de fé é como a formação dos continentes. Ele completou o processo para descobrir a origem da vida e, ainda que desiludido, temeu levantar a mão contra Deus.


