A cozinha e os sonhos
Muitos pensam que o lugar mais importante numa casa é o quarto. Discordo. Claro que o lugar onde se vive a sexualidade, o descanso, é importante, mas descobri que a cozinha é mais. Existe inclusive uma tabela freudiana ou junguiana, não sei bem, para a qual cada cômodo que ocupamos numa casa corresponderia a um quarto ocupado por nossa psiquê. Por isso, a cozinha, onde se pratica a grande alquimia, onde se sacrificam os alimentos que sustentam a vida, é na verdade, o grande altar. Talvez por ser cozinheira, a casa ideal para mim tem dois cômodos, cozinha e banheiro, numa simplificação tábula rasa = consciente, inconsciente. Sonhamos com a beleza ideal, fabricada com dietas as mais penosas e malucas, saindo desse laboratório cheio ainda de fogos, a gás, sintéticos, sem calorias. Ao mesmo tempo, a voracidade e alguns pecados dos mais pesados, entram pela boca, sentados sozinhos, sonhando com dias melhores, enquando damos vazão à gula, com o que houver na geladeira, na falta de outra compulsão, mais à mão.
Muito mais que bolsa de mulher, o talão de cheques do marido, o que se veste, a fachada da casa, só se conhece de verdade uma pessoa, uma família, quando conhecemos o lugar onde se cozinha o alimento. No pinguim da geladeira o sonho de tardes frescas no verão, o tapete redondo com o gato ronronando em cima, sonhos de um cotidiano cheio de paz e noites acolhedoras no inverno...
Maria de Los Angeles





