A COSTUREIRA DAS LEMBRANÇAS
Zeca Corrêa Leite
Um novo livro relatando histórias de uma Curitiba que ficou sepultada no passado, e só existe nas lembranças dos que viveram esses dias, deverá ser lançado em breve. Vai se chamar Do Arco da Velha de Curitiba, mas ainda não tem acertada a editora. Sua autora, Margarita Wassermann, 72 anos, não se dá por vencida. Se faltar quem publique, ela banca os gastos e vai cuidar das vendas.
Para quem fez o primeiro artesanalmente, imprimindo as páginas no computador, vendendo à medida que encontrava comprador - e foram 400 exemplares vendidos - agora tudo é mais fácil.
De bem com a vida, a escritora descobriu-se quase aos 70 anos uma pessoa alegre, feliz, e dona de um amor imenso que volta multiplicado como se fosse bumerangue afetivo. A escritora conta que se livrou das amarras há seis anos, deixou de lado a timidez e de lá para cá publicou Histórias das Recordações, Colcha de Retalhos e Crônicas de Curitiba. Agora escrever faz parte desse novo mundo, desconhecido até os 66 anos de idade.
Tenho que correr, não posso perder tempo. Já pensou se lanço um livro por ano, ano e meio? Supondo que eu viva mais 20 ..., diz, bem humorada. Registrar as lembranças do passado é uma necessidade. As coisas da cidade estão caindo no esquecimento. As pessoas não se lembram mais, e as novas gerações desconhecem o que se passou.
Arco da Velha trará histórias envolvendo pessoas comuns e importantes, mas que nas crônicas adquirem, todas elas, uma aura de mistério e curiosidade por serem, praticamente todas, páginas viradas da vida.
Personagem importante a constar nesse panorama é o interventor Manoel Ribas. Margarita Wassermann o apresenta como um homem simples, rústico. Os jovens de hoje não sabem que o apelido dele era Maneco Facão, ou Mané Facão. Ele não gostava que o chamassem de doutor, mas também tinha sua prepotência.
Eu conto histórias sobre como que foi construído o colégio ali no Juvevê (Escola Estadual Professor Brandão). Era uma chácara, do Pinheiro Lima, médico famoso. Pois Manoel Ribas insistiu, desapropriou e fez o colégio, quando tinha outras áreas para ele escolher. O proprietário morreu de desgosto.
Manoel Ribas era uma pessoa que atendia a quem o procurasse, desde que não usasse muito rapapé que ele não gostava. E se ele implicasse com alguém, coitado desse alguém.
Ainda envolvendo a família Ribas, outra lembrança. Margarita, ainda menina, foi incumbida de ir com uma amiga, Míriam Kopenhagem, levar uma cesta de flores para sua casa. Além de fazer um calor danado, a casa era longe e as flores, aos poucos, foram caindo do arranjo. A certa altura, as duas crianças pararam para descansar e aproveitaram para ensaiar um pequeno discurso. Chegamos lá, era um bagalozinho, batemos na porta, e a esposa de Manoel Ribas, dona Anita, nos atendeu. Na hora que ela perguntou o que queríamos, disparei com o discurso. A Míriam ficou muito triste porque não deixei ela falar, conta rindo a escritora.
De repente explodiO lado escuro e asfixiante da ditadura militar atingiu em cheio a casa e a vida de Margarita. Ela diz que as duras experiências da vida ajudaram no seu amadurecimento. Até chegar o momento de sair da purgação para a leveza da luz. Ela relata:
- Deixei de ser aquela menina que era reprimida em casa porque era mulher, porque o pai não permitia, porque a mãe achava feio, porque o irmão mais velho recriminava, e depois foi ser mãe de família. Hoje tenho plena convicção de que o que faço está acima da mulher comum, da mulher que só lida na cozinha. Eu me impus, mas foi difícil. A pessoa quando é muito oprimida, abafada, a aura dela fica pequena. Só que, de repente, saí fora daquela repressão e explodi.
A explosão veio de forma sutil, envolvida no convite de uma amiga para ir a um bingo no Centro Paranaense Feminino de Cultura. Ali encontrou antigas conhecidas, colegas de escola e deu-se o encanto. Descobriu que aquelas mulheres bonitas e elegantes, eram cultas, tinham feito carreira em suas profissões, aposentaram-se e ainda assim continuavam na ativa.
Envergonhada, Margarita queixava-se para a filha Marly, e ouvia sempre a mesma ladainha: Mãe, a senhora também tem competência, não se desmereça. Durante dois anos apenas observou as reuniões, sem coragem de se expor. Quando a presidente da entidade, Chloris Justen, convidou as presentes a escrever algo a respeito de Curitiba, que completaria 300 anos, e o Centro Paranaense 60, a mais tímida das integrantes chegou em casa com o cérebro fervendo.
Nascia ali a escritora. De repente comecei a escrever. Não aguentava mais cuidar de criança; já estava cuidando da terceira geração, que era a minha bisneta. Não queria mais ficar dentro de casa, areando panelas, ouvindo as mesmas conversas, vendo as mesmas paredes, as mesmas cortinas, a mesma rua. Devagarinho fui saindo de mim, foi uma explosão e meu mundo cresceu.
Trinta anos antes a mesma filha Marly já lhe dizia para escrever e assim aliviar as dores dalma, no terror da ditadura. Eu escrevia, lia, rasgava e jogava fora. O que seria uma terapia, transformou-se em hábito que a acompanhou por três décadas. Tudo foi parar no lixo.
Acontece que eu achava que tinha que romancear, florear. E isto nem se usa mais!, comenta a autora. Um dia, deu-se a lucidez:Tenho que escrever de maneira simples, sintética. Foi decisivo esse pensamento para clarear suas linhas e suas letras.
Costuma pegar um livro grande ou mesmo a Lista Telefônica, coloca no colo, ajeita o papel e escreve. Mania. Nem na mesa não gosto, não sai. Estabeleceu tal intimidade com a criação que já sabe: quando mistura c com s, é porque está cansada. Continua o texto mais tarde.
Colhendo buquêsMargarita Wasserman vive hoje aquilo que ambicionou durante muito tempo. A existência transformou-se em magia para ela. Não sei se é uma consequência, mas dei de me sentir assim liberta. Eu amo, é um amor tão grande, que estou semeando por onde vou e estou colhendo, confessa.
Ainda surpresa com essa alegria dentro e fora de si, conta: Não é que dois nenezinhos se jogaram em cima de mim, que até os pais se assustaram? Acho que está na minha aura. O que não fui feliz na minha vida amorosa, estou sendo feliz agora, no amor pelas pessoas. É um espelho - eu dou amor e recebo carinho. Com 66 anos me desabrochei para a vida.
Margarita lembra de sua timidez doentia e acredita que ela própria prendia em si sua energia boa. Havia um medo constante da reação das pessoas, resultado de uma educação antiquada. Quando menina bastava saber ler e escrever; não precisava de mais nada. Tornando-se moça iria arear panela, lavar fralda, cuidar de nenê.
Foi assim que aprendeu a se resguardar e a temer qualquer manifestação. Ficava me policiando demais, não me permitia botar para fora toda essa alegria que tenho de viver. Esse amor que tenho pelas pessoas e que é como um espelho, um bumerangue. Só que é uma flor que atiro e recebo de volta um buquê, encanta-se. A minha alegria transparece para as pessoas. Eu me sinto jovem, me sinto bonita. Eu estou agradecida aqui dentro do peito.
Agora, a profissão de Margarita Wassermann é trazer para os livros uma cidade que existiu, que tinha um Passeio Público enorme, que aos poucos foi sendo dilacerado para dar lugar ao Círculo Militar, a ruas, Colégio Estadual, Casa do Estudante. Onde estão os jardins? As bocas de leão, dálias, pedregulhos que incomodavam as mulheres que andavam de sandálias?, ela pergunta.
Depois de cuidar dos filhos, netos e bisnetos, Margarita é, no momento, o que ela chama de costureira das lembranças. Fui alinhavando as histórias ao longo da vida. Hoje estou costurando, bordando-as.
Apenas relatando, sem dores de nostalgia, ela estampa uma nova imagem vinda dos baús do peito:
- Tinha uma senhora que todo dia atravessava a rua de chinelo, quimono e de bobies na cabeça, e ia comprar carne no açougue. E tinha outra que colocava sapato de salto alto, meias de nylon, e ia toda arrumadinha comprar carne no açougue. Tudo isso era Curitiba.Relatos de uma Curitiba do passado estão agora impressos nas páginas de um livro, que está na busca por uma editora que o publique
Mauro FrassonMargarita Wassermann com o seu livro Do Arco da Velha de Curitiba, que será lançado em breve





