A correspondência poética de Leminski
Aqui jaz um grande poeta. / Nada deixou escrito. / Este silêncio, acredito, / são suas obras completas. Este poema-epitáfio figura, simbolicamente, na lápide de Paulo Leminski. Logo ao lado, aparece outro: Aqui jaz um artista / mestre em desastres / viver / com a intensidade da arte / levou-o ao enfarte / deus tenha pena / dos seus disfarces.
Perto das comemorações dos 10 anos de morte do poeta curitibano Paulo Leminski, lembrados no próximo dia 7 de junho, a Editora 34 está lançando Envie Meu Dicionário, livro que traz cartas escritas por Leminski, entre os anos de 1976 e 1981, para o poeta paulista Régis Bonvicino. São cartas-poemas que revelam, como uma radiografia, o processo de construção de sua obra.
Na realidade Envie Meu Dicionário não é nenhuma grande novidade. Estas cartas já haviam sido publicada em outro livro, Uma Carta Uma Brasa Através (Editora Iluminuras), em 1992. Mas há diferenças que tornam a presente edição mais completa. Além de acrescentar cartas que ficaram de fora, a Editora 34 optou por publicar as cartas em seu formato original na forma de fac-símile. Neste sentido, além de seu valor biográfico, adquiriu caráter histórico e documental. O volume também traz poemas, alguns deles inéditos (leia texto nesta página), que Leminski anexava às cartas.
As cartas de Leminski foram escritas numa importante época de solidificação de sua obra. Havia acabado de publicar seu primeiro livro, O Catatau e começava a publicar seus poemas em revistas literárias ligadas ao movimento concretista - estabeleceu estreita ligação com Décio Pignatari, Haroldo e Augusto de Campos. Lentamente passa a incorporar a contracultura em sua obra e se joga de braços abertos na música popular brasileira.
Após respirar estes dois universos, passa a seguir um caminho híbrido, independente. Esse processo é tema de reflexão em suas cartas. Seu isolamento em Curitiba é incômodo constante em sua correspondência: não se pode fazer uma coisa nova toda 2ª feira / dixit décio / além do mais / tem o fator isolamento / tirando a alice (que é comprometida) / não tenho interlocutores poéticos / à altura aqui / tenho mais é fãs admiradores / o q é péssimo / fico sem critério / minha sina / meu fado.
Sobre o concretismo escreve: descobri: a poesia concreta, para mim, é um cavalo. Para o cavaleiro, o cavalo não é a meta. Talvez, cavalgando a poesia concreta, eu chegue ao que me interessa: a minha poesia. Acho que estou chegando.
Entre os ensaios críticos que integram Envie Meu Dicionário não há nenhuma novidade, os mesmos textos burocráticos de Régis Bonvicino e algumas tentativas de oferecer uma dimensão abrangente do que representa a arte poética de Leminski.
Paulo Leminski Filho (1944 - 1989) é nome de rua, nome de bar, nome de praça, nome de espaço cultural, nome de coisas e outras coisas. É exaustivamente cultuado, citado e recitado, lembrado e relembrado. Mas se alguém tentar encontrar algum livro de poesia de sua autoria em qualquer livraria do país ficará a ver navios. Entre seu livros de poesia, e não são muitos, apenas um permanece em catálogos, O Ex-extranho (Editora Iluminuras, 1996). Seus livros publicados pela Editora Brasiliense estão todos fora de catálogo, o grande sucesso Caprichos & Relachos (1983), Distraídos Venceremos (1987) e La Vie en Close (1991) - há uma coletânea, Melhores Poemas (Editora Global, 1996) organizada por Fred Góes e Álvaro Marins que reúne fragmentos dos três.
Já seria hora do volume Obra Poética Completa de Leminski estar presente nas estantes das livrarias e nas prateleiras das bibliotecas. Será que isso ocorrerá apenas quando chegar as homenagens dos 50 anos de morte?Arquivo FolhaPaulo Leminski: cartas-poemas revelam, como uma radiografia, o processo de construção de sua obraMarcos Losnak
Especial para a Folha2





