Uma mulher resoluta abalou sozinha a tirania de um rei, defendendo até a morte seu ponto de vista. A mulher, Antígona, tenta enterrar seu irmão Polinices, desafiando o tirano Creonte, rei todo-poderoso. Com ‘‘Antígona’’, Sófocles (495 a.C. – 406 a.C.) deixou para a humanidade não somente um texto teatral, mas um legado sobre ética, lealdade e dignidade. Antígona e Creonte, cada qual com sua verdade, são símbolos da ambiguidade do homem.
O texto clássico foi o ponto de partida para o espetáculo ‘‘Antígona’’, cuja estréia acontece hoje no Shopping Royal Plaza, com o Grupo Teatral Fase Três, sob direção da italiana Nicolleta Robello. Trata-se de um dos mais significativos ‘‘Projetos de Maio’’ do Festival Internacional de Londrina.
Juntamente com a tragédia Antígona, de Sófocles, outros dois textos serviram de apoio: ‘‘Édipo-Rei’’ e ‘‘Edipo em Colona’’. O grupo visitou a trilogia tebana recontando a tragédia e permeando o texto final com o resgate da experiência pessoal de cada um sobre os ‘‘mortos’’ não enterrados. Nesse espetáculo, a diretora Nicolleta Robello faz uma releitura das tragédias se valendo da posteridade dessas histórias atenienses, ou seja, aquilo que poderia ter acontecido com os personagens. Era uma vez uma menina Antígona que resolveu ir ao fundo do mar para revisitar seus mortos, pode resumir o resultado dramatúrgico.
Nesse processo foram feitos vários questionamentos aos atores. Até que ponto vale a pena lutar por um ideal? ‘‘Muitas vezes, somos Creonte em acreditar que o que queremos seja a verdade absoluta’’, constata João Henrique Bernardi, assistente de direção do projeto. A iluminação ficou a cargo de Fernando Jacon. O figurino é de Samuel Abrantes.
O espetáculo tem início quando Jocasta conta com Édipo a primeira parte da trilogia (Édipo, ignorando que se casara com a mãe Jocasta, descobre o infortúnio, sangra os próprios olhos e vaga pelo deserto). A diretora vislumbrou no enigma da esfinge de Tebas uma possibilidade de inserir atores de distintas faixas etárias. Na cidade de Tebas, a esfinge desafiava todos os visitantes com o seguinte enigma: ‘‘quem caminha com quatro pernas pela manhã, duas ao entardecer e três quando já é noite?’’. A resposta à charada, decifrada por Édipo, é o homem. Nicolleta Robello usou atores de faixas etárias de 7 a 87 anos, traçando um paralelo entre as idades e o enigma. A atriz Beatriz Sitta Moreira, a Antígona, tem 7 anos.
No processo de criação a diretora se valeu de recursos da psicanálise, ao recuperar histórias doloridas na vida dos atores. Apenas três histórias foram inseridas na versão final do texto. Uma das atrizes colocou na berlinda sua história de mulher traída, que descobriu repentinamente que o marido possuía outra família. Com um revólver (calibre 38) foi matar a outra. Ao se deparar com a morte, desistiu do intento. Outra atriz não conseguiu superar a perda do filho, em 1973, morto no Lago Igapó, aos 13 anos. Afogada em mágoas, pensou em desistir da vida várias vezes. A tríade se completa com a história da esposa que encontra o marido no bordel com outra, trajando a roupa que ela havia costurado com tanta dedicação. A ligação entre ficção e realidade se instalou no palco. ‘‘Invocamos os nossos mortos’’, resume João Henrique Bernardi.
A história está ambientada no fundo do mar, como se remetesse ao inferno, numa visão particular da diretora. Para o ator Remir Trautwein (Édipo), essa imersão em questionamentos fundamentais causou um alívio no medo de envelhecer. A diretora trouxe uma concepção moderna de tragédia, opinião do ator. ‘‘Saí mais otimista dessa experiência, entendi que é possível envelhecer com dignidade’’, afirma. Na proposta cênica da diretora italiana, Remir acordou o Édipo adormecido dentro de si. Apesar do elemento trágico, os personagens não ficam o tempo todo vagando no lado escuro da história.
•‘‘Antígona’’, com o Grupo de Teatro Fase Três, direção de Nicolleta Robello. Estréia hoje, às 21 horas, no Shopping Royal Plaza, Cobertura (entrada pelo elevador da Praça de Alimentação). O espetáculo fica em cartaz até o dia 4 de junho. Ingressos a R$ 10,00 (R$ 5,00 para estudantes com carteirinha, aposentados e funcionários da UEL).

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