ReproduçãoJoão Gilberto Noll: literatura de atmosfera nebulosa, como nos sonhosExistem pessoas que atravessam o mundo procurando fragmentos do passado para montarem o quebra-cabeça de seu próprio presente. Existem pessoas que atravessam cidades procurando a todo custo um pedaço de futuro, imaginando-o à sua própria imagem e semelhança. Existem também as pessoas que não procuram muita coisa, apenas abandonar o passado e não esperar pelo futuro. Estas últimas atravessam campos, cidades, mares e montanhas dizendo que não podem afirmar muita coisa, a não ser abandonar o presente nos braços do acaso. Ou, sob um outro ângulo, nos braços do caos.
Em seu último romance, ‘‘A Céu Aberto’’, o escritor gaúcho João Gilberto Noll constrói uma personagem agarrada ao presente como uma folha seca no chão. Agarrada ao passado e ao futuro com um peixe agarrado em pássaros. Pode ser descrita como uma pessoa com cada braço amarrado em cavalos de tração. De um lado o cavalo do passado, do lado oposto, o cavalo do futuro. O presente, seus braços esticados. No instante em que um grito invade o ar, o grito que fará os cavalos saírem em disparada em direções opostas, neste exato instante nasce a narrativa.
Fica evidente que cada um dos cavalos arrastará para si um pedaço do presente. O que restar no centro, caído no chão, será considerado a essência do agora. Nem se restarem umas poucas gotas de sangue, ou pequenos fragmentos de pensamentos, ou mesmo farelos de sentidos.
Em ‘‘A Céu Aberto’’, lançado pela Editora Companhia das Letras, a narrativa não demarca o limite entre o real e o imaginário. Pelo contrário, procura passar a borracha em cada linha que apareça como linha limite. O enredo não é uma história a ser contada, mas uma fratura a ser exposta. Um fluxo literário beirando a inconsciência.
NarrativaAutor de outros sete livros, João Gilberto Noll coloca na prática em ‘‘A Céu Aberto’’ o exercício da narrativa como parte integrante do universo onírico. Caminha com a lógica e a razão em ponto morto, com a consciência numa gaveta. Parte de algo que não sabe o que é para chegar num lugar desconhecido. Em suas palavras: ‘‘Minha literatura, como os sonhos, tem uma atmosfera nebulosa, em que os eixos de causa e efeito estão meio borrados, ou pelo menos não são perceptíveis. Tenho a impressão de que uma das funções da literatura, assim como de qualquer arte, é desautomatizar as consciências, em geral muito viciadas, muito acostumadas às relações explícitas e mecânicas. E esse processo é quase o processo da vacina’’.
Se por um lado ‘‘A Céu Aberto’’ é coberto pela névoa que joga as rédeas ao vento, por outro é exato em sua condução. Flertando com a poesia de modo competente, confere sentidos diversos aos processos de tranformações. Os fatos mudam de forma ultrapassando a linearilidade da ficção tradicional. Não há como saber se amanhã terá sol ou chuva, amor ou raiva.
A história de ‘‘A Céu Aberto’’ não pode ser contada de modo linear, já que está pautada na transformação constante, na mutação do narrador, a princípio um garoto. A única sinalização mais ou menos exata é o começo do romance, ou novela, quando o narrador sai em busca do pai para comprar algum remédio para o irmão menor que está doente. A região está em guerra, uma guerra absurda. Daí para frente qualquer coisa pode acontecer. O ceticismo apresenta as cores.
João Gilberto Noll, nascido em 1946 em Porto Alegre, definiu ‘‘A Céu Aberto’’ como um ‘‘livro muito anti-social’’. Talvez não seja tanto, já que o social dos tempos atuais se tornou uma genuína aberração. Mas também está longe de ser um carneirinho branco pastando num belo jardim. Seu grande prazer está em desautomatizar a leitura, algo cada vez mais difícil.
Noll possui uma lucidez solitária. Em recente entrevista à José Castello, sintetizou a noção de beleza nos tempos atuais da seguinte forma: ‘‘O belo, para mim, está no feio. Por mais que eu busque a epopéia, não estou buscando a beleza do henelismo. A beleza contemporânea é de uma feiúra atroz, é quase delinquente. Tem um padrão que realmente dilapida essa beleza cadavérica, pois já está cadavérica hoje, dos ideais helênicos. Essa beleza perfeita, hoje, é um cadáver e, sendo assim, você pode realizar autópsias muito interessantes. Não podemos fugir disso: temos que pôr as mãos nesse defunto. Por isso penso em dilapidar, exatamente como faz um escultor: demolir esse corpo que já está em estado de decomposição e verificar o que se pode ainda extrair dele.’’
Parece que aquele pedaço do homem dilacerado, o pedaço caído no chão, considerado a essência do agora, merece atenção. Nem se restarem apenas algumas gotas de sangue, restos de pensamentos, ou mesmo farelos de sentidos.
‘‘A Céu Aberto’’, de João Gilberto Noll, Editora Companhia das Letras, 164 páginas, R$ 18,00/Livraria Bom Livro.

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