A coragem de amputar a previsão
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de fevereiro de 1997
Marcos Losnak Especial para a Folha2 
ReproduçãoJoão Gilberto Noll: literatura de atmosfera nebulosa, como nos sonhosExistem pessoas que atravessam o mundo procurando fragmentos do passado para montarem o quebra-cabeça de seu próprio presente. Existem pessoas que atravessam cidades procurando a todo custo um pedaço de futuro, imaginando-o à sua própria imagem e semelhança. Existem também as pessoas que não procuram muita coisa, apenas abandonar o passado e não esperar pelo futuro. Estas últimas atravessam campos, cidades, mares e montanhas dizendo que não podem afirmar muita coisa, a não ser abandonar o presente nos braços do acaso. Ou, sob um outro ângulo, nos braços do caos.
Em seu último romance, A Céu Aberto, o escritor gaúcho João Gilberto Noll constrói uma personagem agarrada ao presente como uma folha seca no chão. Agarrada ao passado e ao futuro com um peixe agarrado em pássaros. Pode ser descrita como uma pessoa com cada braço amarrado em cavalos de tração. De um lado o cavalo do passado, do lado oposto, o cavalo do futuro. O presente, seus braços esticados. No instante em que um grito invade o ar, o grito que fará os cavalos saírem em disparada em direções opostas, neste exato instante nasce a narrativa.
Fica evidente que cada um dos cavalos arrastará para si um pedaço do presente. O que restar no centro, caído no chão, será considerado a essência do agora. Nem se restarem umas poucas gotas de sangue, ou pequenos fragmentos de pensamentos, ou mesmo farelos de sentidos.
Em A Céu Aberto, lançado pela Editora Companhia das Letras, a narrativa não demarca o limite entre o real e o imaginário. Pelo contrário, procura passar a borracha em cada linha que apareça como linha limite. O enredo não é uma história a ser contada, mas uma fratura a ser exposta. Um fluxo literário beirando a inconsciência.
NarrativaAutor de outros sete livros, João Gilberto Noll coloca na prática em A Céu Aberto o exercício da narrativa como parte integrante do universo onírico. Caminha com a lógica e a razão em ponto morto, com a consciência numa gaveta. Parte de algo que não sabe o que é para chegar num lugar desconhecido. Em suas palavras: Minha literatura, como os sonhos, tem uma atmosfera nebulosa, em que os eixos de causa e efeito estão meio borrados, ou pelo menos não são perceptíveis. Tenho a impressão de que uma das funções da literatura, assim como de qualquer arte, é desautomatizar as consciências, em geral muito viciadas, muito acostumadas às relações explícitas e mecânicas. E esse processo é quase o processo da vacina.
Se por um lado A Céu Aberto é coberto pela névoa que joga as rédeas ao vento, por outro é exato em sua condução. Flertando com a poesia de modo competente, confere sentidos diversos aos processos de tranformações. Os fatos mudam de forma ultrapassando a linearilidade da ficção tradicional. Não há como saber se amanhã terá sol ou chuva, amor ou raiva.
A história de A Céu Aberto não pode ser contada de modo linear, já que está pautada na transformação constante, na mutação do narrador, a princípio um garoto. A única sinalização mais ou menos exata é o começo do romance, ou novela, quando o narrador sai em busca do pai para comprar algum remédio para o irmão menor que está doente. A região está em guerra, uma guerra absurda. Daí para frente qualquer coisa pode acontecer. O ceticismo apresenta as cores.
João Gilberto Noll, nascido em 1946 em Porto Alegre, definiu A Céu Aberto como um livro muito anti-social. Talvez não seja tanto, já que o social dos tempos atuais se tornou uma genuína aberração. Mas também está longe de ser um carneirinho branco pastando num belo jardim. Seu grande prazer está em desautomatizar a leitura, algo cada vez mais difícil.
Noll possui uma lucidez solitária. Em recente entrevista à José Castello, sintetizou a noção de beleza nos tempos atuais da seguinte forma: O belo, para mim, está no feio. Por mais que eu busque a epopéia, não estou buscando a beleza do henelismo. A beleza contemporânea é de uma feiúra atroz, é quase delinquente. Tem um padrão que realmente dilapida essa beleza cadavérica, pois já está cadavérica hoje, dos ideais helênicos. Essa beleza perfeita, hoje, é um cadáver e, sendo assim, você pode realizar autópsias muito interessantes. Não podemos fugir disso: temos que pôr as mãos nesse defunto. Por isso penso em dilapidar, exatamente como faz um escultor: demolir esse corpo que já está em estado de decomposição e verificar o que se pode ainda extrair dele.
Parece que aquele pedaço do homem dilacerado, o pedaço caído no chão, considerado a essência do agora, merece atenção. Nem se restarem apenas algumas gotas de sangue, restos de pensamentos, ou mesmo farelos de sentidos.
A Céu Aberto, de João Gilberto Noll, Editora Companhia das Letras, 164 páginas, R$ 18,00/Livraria Bom Livro.


