São Paulo - Quando estava com apenas 5 anos, o argentino Guillermo Mordillo foi tomado por uma visão: ao assistir o clássico desenho ''Branca de Neve e os Sete Anões'', de Walt Disney, descobriu que o mundo também podia ter cores mais belas e traços mais delicados. Foi o suficiente para decidir que carreira seguiria - hoje, aos 80 anos (completados em agosto), Mordillo é artista consagrado, autor de desenhos inconfundíveis e fôlego interminável, pois se prepara para realizar seu primeiro longa metragem. ''Vou cuidar de tudo, menos de dois detalhes: trilha sonora e diálogos, áreas que não domino'', conta ele, gargalhando.
A frase se torna de efeito, pois exemplifica bem sua forma de trabalho. Mordillo tornou-se mundialmente conhecido pelos desenhos coloridos e sem palavras, repletos de amor, esporte (futebol e golfe, em particular) e animais pescoçudos. Vinhetas com suas animações foram exibidas na TV brasileira nos anos 1980, mas atualmente apenas fãs de quadrinhos reconhecem por aqui seu talento.
Há duas semanas, Mordillo deslocou-se de Paris, onde vive, para a Feira do Livro de Frankfurt, onde se encontrou com fãs apaixonados. Deu autógrafos, distribuiu chaveirinhos inspirados em seus personagens. Lá, também, conversou com a reportagem.

O senhor passou a maior parte de sua vida fora da Argentina. Por quê?
Tive de deixar meu país com 23 anos, por problemas políticos - os governantes nunca foram bem humorados (risos). Fui ao Peru a passeio e, em vez de três meses, acabei ficando cinco anos. Lá, trabalhei em campanhas publicitárias até finalmente me transferir para Nova York em 1960, quando publiquei meus primeiros trabalhos e ganhei alguma notoriedade. Também morei pela primeira vez em Paris, publicando em revistas como ''Lui'', ''Paris-Match''. Mas o segredo do meu sucesso foi não ter sido tão inteligente: seguia meu instinto, daí meus desenhos serem graciosos. Se usasse muito a inteligência, talvez fossem chatos (risos).
A decisão de ser desenhista começou quando viu Branca de Neve no cinema?
Sim, foi uma experiência inesquecível. Fiquei deslumbrado e comecei a desenhar. Logo comuniquei aos meus pais que seguiria aquela profissão. Era um moleque e eles não disseram nada. Acho que era algo tão fora de propósito que preferiram ficar em silêncio (risos). No início, eu só copiava o traço alheio e apenas depois de 13 anos é que sedimentei meu próprio estilo.
E seu método de trabalho sempre foi o mesmo?
Sim, praticamente o mesmo. Quando tenho uma ideia, preciso descrevê-la primeiro em palavras. Até surgir o desenho, leva um tempo. Gosto de trabalhar com diversos desenhos ao mesmo tempo, pois a cada dia escolho aquele que me inspira mais.
Como surgiu sua predileção por personagens arredondados e por alguns animais específicos, como cachorros e girafas?
O formato dos personagens é resultado do que aprendi nos EUA: não é bom definir um personagem como masculino ou feminino, pois cria mais empatia ou pelos homens ou pelas mulheres. Já os animais... Bem, acho gatos e cachorros muito engraçados, são inspiradores. E a girafa é elegante, além de ser silenciosa - como meus cartuns. Mas confesso que nunca pensei que as girafas fizessem sucesso.
E o futebol?
Ah, joguei muito quando garoto, com meus amigos. Não era nada profissional, mas o futebol sempre me encantou pela sua imprevisibilidade. No cinema, normalmente você sabe como vai terminar a história, por mais surpresas que tenha a trama. No futebol, é diferente: até o último minuto de jogo, tudo pode acontecer. Isso é sensacional.
Qual a função do humor de seus quadrinhos?
Procuro sempre transmitir ideias pacíficas, mas sei que é utópico - jamais viveremos em um mundo plenamente feliz, até porque aí não haveria nenhum humor (risos). Posso parecer piegas, mas a função do humor é principalmente refletir sobre assuntos desagradáveis, como guerras e injustiças, mas sem jamais provocar choro ou desespero: é preciso manter a esperança.
O senhor completou 80 anos e continua muito ativo.
Sim, tenho planos para os próximos dez anos (risos). Na verdade, comemorei meu aniversário com uma exposição e um livro - não à toa chamados ''4 x 20'' - e também o filme de animação, que estamos preparando. Depois de ter produzido diversos filmetes, agora será um grande desafio trabalhar com um longa-metragem. Sabe, meu cérebro é como um computador (não muito moderno, reconheço...), que vou alimentando com cenas que me cercam: folha caindo, criança chorando. Registro tudo e devolvo isso em forma de arte.

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