Nada comum o surgimento, entre a indolente tecno-mediocridade que assola Hollywood, de competência bem acima desta padronagem miúda e rasteira. Melhor ainda, a confirmação de um talento maduro apesar da pouca idade. Depois do sucesso da estréia com ''Sexto Sentido'' e da superação da chamada síndrome do segundo filme, ''Corpo Fechado'', M. Night Shyamalan estabelece com ''Sinais'' a condição de um dos melhores narradores do cinema contemporâneo.
Existe uma razão para todas as coisas que acontecem? E se todas as coisas acontecem por qualquer razão, existe um poder maior no controle de tudo? Essas questões basicamente estão na essência de ''Sinais'' (veja a programação de cinema na página 2), título que se revela tão adequado que o tradutor não teve como alterá-lo. E como nos bem-sucedidos projetos anteriores de Shyamalan, o sobrenatural se torna o território mais adequado para a investigação do auto-conhecimento e busca de identidade.
Em ''Signs'', Graham Hess (Mel Gibson) é um ex-reverendo que abandonou a religião, a paróquia e a fé depois que um estranho acidente causado por um veterinário (M. Night Shyamalan, em pessoa) matou sua mulher (Patrícia Kalember). Graham, sempre assombrado pela tragédia, mas agora convertido em pacato agricultor, vive na propriedade rural com os dois filhos menores, Bo (Abigail Breslin) e Morgan (Rory Culkin), e com o irmão Merrill (Joaquin Phoenix), um jogador de beisebol cujos talentos vão se revelar úteis no decorrer da trama. Em determinado momento, num dia qualquer, a família começa a ouvir ruídos estranhos, o cachorro fica à beira de um ataque de nervos e todos saem para ver o que é. Diante deles, intrincados, estranhos, gigantescos círculos abertos bem no meio do milharal. Eles também ouvem notícias de que círculos idênticos começam a surgir em vários lugares na Índia.
O cético Merril sugere que podem ter sido feitos por uma sociedade secreta de rapazes sem namoradas. Graham imagina que é uma brincadeira dos vizinhos. Mas só até ele começar a ver alienígenas (ou ele pensa que vê). As crianças, Morgan e Bo, estão desde o começo convencidas de que tudo é obra de extraterrestres. Até compram um livro sobre as criaturas, acreditando em cada palavra. Barulhos diferentes são captados dentro de casa. Estaria o mundo realmente sob o ataque de ETs? Esta questão é respondida lá pela metade do filme. Mas ''Sinais'' é muito mais do que isso.
Graham renunciou a Deus depois da morte da mulher, e constantemente pensa sobre os últimos momentos que passou com ela. A menina Bo é obcecada com germes na água, e está sempre às voltas com copos novos, que deixa espalhados pela casa. O garoto Morgan tem asma, e seu estado requer cuidados permanentes. Merrill é um ex-jogador de beisebol mediano, cuja única habilidade auto-reivindicada era a sofrível combinação velocidade/força nas tacadas. Estariam todas estas referências conectadas? M. Shyamalan parece acreditar que sim. Mas seriam apenas coincidências ou ''sinais''?
Num momento de tensão, Graham coloca a Merrill o ponto crucial. Ele diz que há duas espécies de pessoas. Há aquelas que acreditam que tudo acontece por uma razão, e que não estamos sós. E há aquelas que acreditam que vivemos numa espécie de solidão metafísica. Há pessoas com fé e pessoas sem fé. Graham precisa descobrir a qual grupo pertence. E ele o faz no eletrizante clímax.
''Sinais'', como o próprio título indica, é também uma tese sobre a construção do suspense. Sabe-se que um bom ''thriller'' se molda a partir de pistas, objetos, leves indícios que cedo ou tarde adquirem significado na narrativa. Nos filmes de Shyamalan nada escapa a esta máxima: absolutamente tudo está ali por alguma razão, até o mínimo detalhe que à primeira vista pode passar despercebido. O diretor elegeu contar uma grande história na menor versão possível. Simplificando: o mundo é invadido por uma raça de extraterrestres, mas o diretor filme somente cinco personagens, um casarão, um sótão e um campo aberto que pode, ou não, estar repleto de alienígenas. O filme narra de forma microscópica a ameaça latente que pesa sobre a família Hess, de resto um grupo familiar em crise. Ameaça ao final simbólica: a da perda da fé, a de deixar de crer que há uma razão profunda para as tragédias que nos tocam sem aviso prévio.
Ao longo da história, Shyamalan propõe cenas que resolve de forma magnífica, com seu já habitual estilo de lenta acumulação de tensão. Pode-se dar a ele simples folhas ao vento, ou um copo d'água, e esses assuntos banais podem se transformar em experiências intensíssimas. O reflexo de uma faca, uma rede balançando na noite, as fotos de um livro: com essas coisas pequenas consegue armar um mundo asfixiante. É assim, sempre, mostrando pouco, sugerindo muito, retesando a corda nervosa do espectador, trabalhando o medo do desconhecido. Vê-se muito pouco de efeitos especiais, já que para a direção o que de fato assusta está fora do alcance dos olhos.
''Sinais'' tem autonomia para se tornar um clássico. Como contador de histórias, Manot Night Shyamalan, indiano de Madras, de apenas 32 anos, é diligente seguidor de Hitchcock e Spielberg. O primeiro como óbvia inspiração estilística ângulos de câmera, engenharia de planos, jogos de luz e sombra, preocupação com os detalhes, utilização da música; não por acaso o diretor fez todo o elenco ver ''Os Pássaros'' antes de começar as filmagens. E o segundo pela brusca mudança de tom, alternando o drama familiar com a comédia e a ficção-científica, numa espécie de cruzamento entre a comicidade de ''E.T.'' e o suspense de ''Contatos Imediatos de Terceiro Grau''. Mas as comparações param aí. Shyamalan é também cineasta original, com histórias cativantes que estão dando novo alento ao cinema hollywoodiano de massa sem desprezar a inteligência do público.
Todo o elenco de um eloquente Mel Gibson a comovente estreante Abigail Breslin tem comportamento exemplar. Seja ao redor de uma mesa, reclamando das atribulações do dia-a-dia ou tentando captar sinais alienígenas com um pequeno monitor, todos convencem, especialmente as crianças.

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