Muito já se afirmou que para o verdadeiro teatro existir é necessário apenas duas coisas: ator e público. O espetáculo ‘‘Calisto – Historia de un Personaje’’, que a companhia Teatro Meridional – que reúne artistas de três países, Espanha, Itália e Portugal – apresentou no Filo 2000 leva esse conceito ao extremo.
Com um único ator em cena (Alvaro Lavín Martín), sentado e praticamente imóvel, a montagem apresenta dois personagem principais e outros 22 secundários no corpo de um monólogo de múltiplas vozes. Com o mínimo de iluminação e figurino, ausência quase completa de cenário e música, ‘‘Calisto’’ utiliza a arte do ator para refletir sobre a própria arte teatral, em especial o mundo interior que habita o sonho cênico. O resultado é o bom e velho teatro.
‘‘Calisto’’ mostra o encontro entre um jovem ator e um centenário personagem. O diálogo entre ambos revela a existência de uma via de mão dupla entre ator e personagem. Se por um lado o ator concede vida ao personagem dando-lhe corpo, alma, e existência propriamente dita, por outro o personagem concede ao ator uma história de vida a ser concretizada no palco. Nessa via de mão dupla, o ator deve acrescentar algo de si mesmo no espírito do personagem e o personagem deve acrescentar algo de si mesmo no espírito do ator. Esse seria o sonho, ou a utopia, do princípio interior da arte teatral de acordo com a encenação da companhia Meridional.
Entre as varias reflexões que o espetáculo pode despertar, vale lembrar uma das mais sutis. De maneira geral o ator tende a ser um indivíduo coberto de vaidades, um artista que, em alguns casos, faz da própria vaidade um papel a ser encenado. Mesmo vestindo a máscara do personagem a ser interpretado, tende a colocar a própria individualidade como algo maior que o próprio personagem. ‘‘Calisto’’ oferece o outro lado da moeda. Apresenta o personagem como uma entidade coberta de vaidades, que sente a dor de ser mal interpretado e o prazer de estar nas mão de um bom ator.
Da mesma maneira que um personagem é dependente de um ator que o concretize, que expresse suas emoções, o ator é dependente de personagem para exercer seu ofício. Nessa relação de interdependência, o ator pode dar brilho ou bolor ao personagem e o personagem pode transformar um indivíduo em ator luminoso ou mecânico.
Nesse contexto, existem muito mais personagens em busca de atores do que atores em busca de personagens. Isso porque cabe ao ator empreender uma busca em direção ao personagem – e a este cabe apenas esperar que um ator o encontre. Na realidade, o encontro entre ator e personagem, o eixo central de ‘‘Calisto’’, está justamente na argamassa primordial da magia do teatro.
As consequências desse encontro pode ser comprovada quando o espectador não enxerga, no palco, um ator fingindo ser determinado personagem, mas sim um personagem vivo que traz dentro de si um ator latente, praticamente invisível. Do mesmo modo como o/a personagem doa sua história ao ator, este deve doar sua melhor técnica e seus mais honestos sentimentos ao personagem. Quando isso ocorre, presenciamos o bom e velho sonho cênico – aquele que nos tira da realidade imediata para nos colocar em outro tempo/espaço.
Tendo em vista a linguagem do Teatro Meridional apresentado em ‘‘Calisto’’, bem como o trabalho de ator de Alvaro Lavín Martín, é recomendável conferir outro espetáculo que a companhia apresenta hoje no Filo 2000. Trata-se de ‘‘Qfwfg – Una Historia del Universo’’ inspirado num dos contos de ‘‘As Cosmicômicas’’, obra do escritor italiano Italo Calvino.

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