A construção de imagens
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quinta-feira, 28 de novembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
É hoje a abertura da exposição ''Vistas Táteis'' no Museu de Arte de Londrina. O público poderá, enfim, conferir as fotografias clicladas pelo franco-esloveno Evgen Bavcar e pelos alunos do Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos.
A inauguração está prevista para às 10 horas. A exposição faz parte do evento ''A Expressão Fotográfica e os Cegos'', iniciada no último domingo e cuja programação de hoje inclui ainda o lançamento do livro ''Tempos do Tempo'', de Eliane Velozo, e a mesa-redonda ''O Ponto Zero da Fotografia''.
A mostra, que tem curadoria de Ricardo Resende, vai ocupar os dois pisos do Museu. O térreo receberá 43 fotos de Bavcar, enquanto que o andar superior acolherá 62 imagens produzidas pelos 13 participantes da oficina de iniciação fotográfica ministrada desde o começo do ano no Ilitc. Uma espécie de caixa preta, totalmente escura, será instalada na rampa que liga os dois pisos imitando o universo dos deficientes visuais.
Lá, o visitante ouvirá depoimentos dos alunos cegos, com a descrição de como eles imaginam que ficaram as fotos. Assim, o espectador poderá criar as imagens internamente, na memória, e só depois irá ver os trabalhos. Marcelo de Oliveira, 30 anos, por exemplo, registra:
''Na casa de um amigo meu, na cidade onde eu moro, com a máquina na mão eu pude presenciar a lua. Provavelmente seria lua cheia porque ela estava muito clara, muito perto. E do ângulo que eu estava me parecia uma coisa muito extraordinária e eu resolvi tirar uma fotografia dela. E tem esses arames aqui. A impressão que eu tinha era que a minha mão podia tocar nela. E esses arames aqui estavam me atrapalhando e eu voltei um pouco para trás e tirei. Mas ela não saiu toda, praticamente não saiu nada''.
Além de Marcelo, fazem parte do grupo Alex Junior Ribeiro, Celso Hirashima, Dário Pereira de Oliveira, Flávio Cordeiro da Silva, Hélio Silva Vieira, Patrícia Maria Braga Cruz, Rodrigo da Silva Marin, Rui Yoshi Saito, Shirlei Mara Sambatti, Tânia Regina da Silva Vieira, Luzia Tatiane Pereira de Quadros e Antonio Carlos Ferreira.
As fotos estarão acompanhadas por textos escritos em braile. As imagens foram registradas com câmeras descartáveis durante a realização da oficina, que teve coordenação da artista plástica Fernanda Magalhães com monitoria da jornalista Karen Debertólis. O curso, bancado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, começou em maio desse ano.
Quando foi idealizado, inspirado na obra de Bavcar, Fernanda não queria apenas ensinar fotografia mas discutir a construção do olhar no mundo contemporâneo (uma preocupação já presente em seu instigante trabalho sobre a representação da mulher gorda nua na fotografia, de 1997). Os alunos do Instituto têm entre 16 e 62 anos. Dois já nasceram cegos. Os outros perderam a visão por vários motivos.
Durante a oficina, produziram mais de 1.500 imagens. Coube ao curador Ricardo Resende selecionar as fotos para a exposição. Segundo ele, ''o resultado supera os preconceitos de que um deficiente visual não poderia fotografar, por não enxergar''. Acrescenta que a as imagens apresentam não apenas ''boa qualidade técnica'', mas também ''muita poética visual''.
''Nos mostra ainda o lado mais sensível de potenciais artistas que usam todos os seus demais sentidos para enxergar o que a maioria de nós, de visão normal, não tem capacidade de fazê-lo'' completa. O acervo de Bavcar, por sua vez, também promete levantar sobrancelhas de visitantes mais exigentes. Cego desde os 12 anos, o artista desafiou sua condição física começando a fotografar aos 16 anos.
De lá para cá, realizou incontáveis exposições pelo mundo, sempre provocando espanto nos espectadores, perseguidos pela pergunta: ''como é possível?''. Produzindo ''imagens internas'', para depois fotografá-las, Bavcar conta com a ajuda de pessoas que descrevem para ele a paisagem, detalhes de cenas e também as fotografias. Ele também utiliza sua memória de infância, de quando ainda enxergava.
A exposição permanece em cartaz até o dia 10 de janeiro. Depois de desmontada, a coleção de Bavcar volta para o Rio de Janeiro e a coletiva dos 13 fotógrafos iniciantes segue para o Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Serviço:
- Abertura da exposição ''Vistas Táteis''. Local: Museu de Arte de Londrina (Rua Sergipe, 640). Horário: 10 horas.
- Lançamento do livro ''Tempos do Tempo'', da fotógrafa Eliane Velozo. Local: Museu de Arte de Londrina (Rua Sergipe, 640). Horário: 10 horas.
- Mesa-redonda ''O Ponto Zero da Fotografia''. Participantes: Evgen Bavcar, Eliane Velozo e Adauto Novaes. Local: Associação Médica de Londrina (Praça 1º de Maio, 130). Horário: 19 horas.


