Marcos Losnak Especial para a Folha2
Primeira versão: no princípio era o corpo - corpo que, para o prolongamento de seu sentido, foi insuflado de alma. Segunda versão: no princípio era a alma - alma que, como prolongamento de sua existência, foi confinada em um corpo.
A essas duas versões básicas da existência humana somam-se outras possibilidades através da confluência de conhecimentos. Seria possível afirmar que cada cultura possui uma alma. E que cada religiosidade vem acompanhada da alma da cultura que a germinou. E, o mais importante, que a mitologia de cada cultura é o espelho da alma do povo que a construiu.
Em cada pedaço desse espelho diverso, cada homem pode identificar fragmentos da própria alma em imagens até então obscuras. Nesse sentido, a mitologia das mais variadas culturas passa a figurar como um espelho/mosaico da alma humana. O grande sentido de tal mosaico está em que as diferenças levam a uma unidade superior.
Entre os milhares de exemplos que podem desenhar tal mapa, está o livro ‘‘Ka’’ (Quem?) do escritor e editor italiano Roberto Calasso. Lançado pela Editora Companhia das Letras, a obra viaja pela milenar mitologia indiana para compor um pedaço do espelho. Caminhando pela complexidade de uma mitologia prolixa, com 3.366 deuses, realiza um texto híbrido, entre o romance e o ensaio filosófico - ao mesmo tempo que conta histórias mágicas, reflete e investiga sobre seu conteúdo.
Em ‘‘Ka’’ a mente é o início do mundo: ‘‘A mente, um fluxo sem margens atravessando por labaredas que se perdem. Era preciso traçar um círculo, uma moldura, um templum.’’ Precisava de um ordenamento. ‘‘A mente era aquilo que transforma e aquilo que se transforma. Era o calor, a chama presa dentro dos ossos, o suceder-se, o dissolver-se das figuras desenhadas no escuro - e a sensação de saber que isso ocorria.’’
Galasso apresenta a construção do mundo dos deuses e a construção do mundo dos homens. Mostra como confluência entre os dois mundos assume a forma de dependência mútua. O escritor consegue mapear, de maneira exata, o ponto em que o rito se transforma em narrativa, ou seja, o ponto em que o rito se transforma em literatura. O gesto convertido em palavra.
Houve um época em que os ritos eram uma forma de alcançar o céu. Entre um rito e outros, as histórias eram narradas como um espécie de descanso. Com o tempo os ritos passaram a povoar as histórias, tornaram-se uma passagem dentro das histórias. Nesse ponto o rito, o sacrifício, ou seja o gesto, já não bastava, era também preciso a narrativa do gesto - gestos rituais e não rituais. Nas palavras de Galasso, a literatura cresceu nos intervalos dos sacrifícios, no início uma erva, depois uma trepadeira que entra nos buracos dos tijolos e os despedaça por dentro. ‘‘O repertório de gestos é limitado, os significados são inesgotáveis. Assim, as mesmas histórias se repetem e variam porque, numa lenta rotação, a cada volta se descobre um nova terra e um novo céu de significados.’’
‘‘Ka’’ não é uma obra fácil, exige atenção redobrada do leitor. Uma espécie de narrativa que percorre, indistintamente, os labirintos da mente e as representações de existência humana. Acontece num tempo diferente do tempo cotidiano. Apresenta um universo descontínuo e não conclusivo. Encontra eco nas palavras de Brahma: ‘‘O mundo nasce da interrupção de um sono. Por isso a vigília é a única prova da existência. Por isso o mundo é fragmentado e não pode atingir a plenitude. Por isso tenta continuamente recompor a plenitude. Em vão, porque o descontínuo nunca passará para o contínuo.’’
‘‘Ka’’ é uma narrativa que caminha como os passos dos pássaros, com seus pequenos e rápidos pulinhos em terra, e sua enorme e sutil vôo em ar livre. Uma aventura entre o céu e a terra que, na realidade, é uma aventura no interior do ser humano e seu reflexo exterior.
Ao narrar o canto do pássaro, Galasso remete, de maneira sutil, ao vôo. Ao narrar o vôo do pássaro, remete, de maneira igualmente sutil, ao canto. O vôo como uma extensão do canto e o canto como uma extensão do vôo.
Nota: ‘‘O fundamento não é que um ser diga ‘eu’: todos os animais dizem ‘eu’ no momento em que emitem um som. Entre o Si e o eu existe uma única diferença: o Si olha o eu, o eu não olha o Si. O eu come o mundo. O Si olha o eu que come o mundo. São dois pássaros, estão em ramos opostos da mesma árvore, na mesma altura, à mesma distância do tronco. Para aquele que os olha, são quase iguais.’’
‘‘Ka’’ de Roberto Galasso, Editora Companhia das Letras, tradução de José Rubens Siqueira, 398 páginas, R$ 29,00.

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