A consciência dormindo ao som do dinheiro
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Paulo WolfgangCena de ‘‘Corpo a Corpo’’, com o grupo TapaEspetáculo levanta
questões há muito
apagadas do mapa‘‘Corpo a Corpo’’, de Oduvaldo Vianna Filho, encenado pelo lendário grupo paulista ‘‘Tapa’’ no Festival Internacional de Londrina, levanta questões há muito apagadas do mapa. Conflitos interiores presos a quatro paredes - ou à caixa craniana - cada vez mais esquecidos, desprovidos de valor. Mesmo quando valorizados, durante o drama, são esquecidos ao primeiro toque do despertador.
O ator Zécarlos Machado, com direção de Eduardo Tolentino de Araújo, optou em acentuar a expressão dos conflitos do personagem Vivacqua, colocando o exagero como recurso para dar maior agilidade ao monólogo. Trafegando entre o insolente e o frágil, entre a coragem e o medo, Vivacqua escancara suas neuroses numa conturbada noite solitária.
Fechado em seu apartamento, o personagem elege, como elemento de ligação entre seus conflitos e o mundo exterior, o telefone. O aparelho torna-se objeto de grande parte de suas ações, funcionando como instrumento de diálogo dentro do monólogo, numa solução fácil.
Escrito em 1970, ‘‘Corpo a Corpo’’ evidenciava a tempestuosa crise de consciência que um homem que abandona seus ideais de um mundo igualitário e sonhos pessoais em nome do dos prazeres, poder e segurança que o dinheiro proporciona. Para conseguir tal dinheiro, precisa, literalmente, vender-se a princípios nada éticos. Colocando o personagem na pele de um publicitário, realiza uma leitura emblemática da contemporaneidade.
O questionamento proposto pelo texto de Oduvaldo Vianna Filho praticamente ecoa, nos dias de hoje, no vazio. Atualmente as crises de consciência estão em acelerado processo de extinção. Em nome da ilusória ‘‘sobrevivência confortável’’, ou da falácia de um ‘‘trabalho honesto’’, uma legião de profissionais coloca princípios éticos sob sete palmos com o objetivo de sorrir com mais naturalidade. Protegidos sob o argumento de que suas atividades não comprometem o outro ou o todo, realizam um carnaval de pequenas atrocidades subliminares como se brincassem de ciranda.

mockup