A consciência do exílio
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 25 de julho de 2000
Rubens Pileggi Sá De Londrina Especial para a Folha2 
A XII Mostra da Gravura da cidade de Curitiba, em exibição em vários locais até o dia 6 de agosto, tem como tema a discussão das formas plásticas que se apresentam como marca, incisão, derivando daí um conceito ampliado de gravura, onde cabem todos os tipos de manifestações, porque tudo, enfim, não deixa de ser marca, inscrição, sinal. Pode-se assistir a vídeos, ver instalações, objetos de arte, esculturas, pinturas, desenhos, fotografias e, inclusive, gravuras, seja em outdoor, ou mesmo no sentido mais tradicional do termo, também.
Dentre vários trabalhos interessantes, como as instalações de Nuno Ramos, as xilogravuras de Samico e exposições como Indelével e Fugaz e Vigiar e Punir, por exemplo, dois trabalhos do artista israelense que vive atualmente em Florianópolis, Yiftah Peled, se destacam pela capacidade de produzir uma sensação de estranhamento que nos coloca diante da necessidade de decifrá-los ou por eles sermos devorados, como no enigma da esfinge.
Um deles está no Museu Metropolitano de Arte e faz parte da exposição Escritura Judaica. Trata-se de uma pequena saleta branca, onde, em um canto estão colocados vários bloquinhos coloridos de papel, como se fossem para anotações, ou como se fossem folhetos de distribuição publicitária. O outro trabalho está no Museu da Fotografia, dentro da exposição Uma História da Pele. É uma colagem pregada em um lado de uma parede, com um homem nu deitado, com um balão de história em quadrinhos escrito atchim explodindo o limite da moldura de um outdoor. E do outro lado da parede, vários buracos feitos com uma furadeira. E só.
O que querem dizer estes trabalhos que nos colocam em uma posição de imediata defesa de nossos territórios e limites, uma vez que ao levantar a questão já nos perdemos dos sentidos que antes nos orientavam? Porque nos desestabilizam?
Os trabalhos de Peled possuem a característica paradoxal de nos retirar os pés do chão e só assim damos conta de que pés e chão são sobretudo a idéia que temos de pés e chão. Expressam sobretudo a incomunicabilidade. Atacam nossos discursos sobre as mediações, a publicidade, a propaganda e aos próprios conceitos e definições do que é arte ou não. Criam vazios que se tornam ruídos entre objetos que deveriam se relacionar, ou se aproximam por relações desproporcionais como as roupas de carteiro presas por porcas de metal (94), ou de saliva com sabão em pó, ou de uma cama ou mesa de ferro com um corte em forma quadrada na parede da galeria (94). Justificar parece querer dizer, em Peled, excluir. Ao definir o que é mundo, nos afastamos do mundo, e ao tomarmos consciência deste fato, recompomos nosso próprio corpo e nos questionamos sobre a presença do lugar que a ausência ocupa.
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