A CONSCIÊNCIA DA PERIFERIA
A voz dos subúrbios, da favela, única possibilidade de expressão nos guetos eis o hip hop, cultura hoje espalhada por vários países e que no Brasil se encontra em franca expansão. Não se trata apenas de ritmo e poesia, nem de letras contestatórias, nem de simples apetrechos comuns entre os rappers. É tudo isto aliado a uma atitude: Não adianta o cara pôr roupa de mano, comprar CD, andar de skate. Hip Hop é uma postura diante da realidade define MC Pirata, do grupo londrinense SOS Atitude.
Popularizada no Brasil nos anos 80, a cultura Hip Hop se disseminou nos bairros periféricos das grandes cidades. A realidade, invariavelmente sufocante para quem mora nesses bairros, impulsiona boa parte dos garotos pobres a se expressar pelo RAP: É um desabafo. A gente sofre todo o dia e não tinha nem como se rebelar. Aí chegou o RAP, a nossa voz lembra MC Sapão, da banda G.A.F.
Para integrar a rapaziada (como eles gostam de se definir) do Hip Hop, alguns preceitos são fundamentais: prosa desenfreada, conscientização política, coragem para enfrentar o constante preconceito, estar por dentro das gírias e dos costumes (jeito de se vestir, de andar, dos gestos), e saber que no mundo o homem está só, assim como dizia Mano Brown em O Homem na Estrada.
A preocupação com o social acontece apenas no Hip Hop avisa DJ KSK, referindo-se a outros movimentos que surgem entre as populações carentes e só se preocupam em ganhar dinheiro. Outra característica importante para um rapper, é a dedicação ao estudo: O letrista do GOG (grupo de Brasília) fez Jornalismo e Economia. O cara tem que saber o que fala recomenda DJ KSK. Ele ataca certa parte da sociedade que considera os rappers analfabetos ou marginais: Às vezes a gente sabe até muito mais do que eles. Eu recomendaria a um pai rico que vê seu filho drogado, a deixar ele passar uns três meses com a gente. Com certeza o cara pára de se drogar prevê o DJ.
Além de se importar com a sua realidade, é preciso dominar os outros elementos: o break (a dança), o RAP (a letra e a música), o grafite (arte visual) e o MC (mestre de cerimônia). Ainda há o vestuário (calças folgadas, camisa com grupos de Hip Hop, bonés e tênis detonados), que no ínicio era composto por camisas de clubes de basquete norte-americanos, mas que se restringe a estampas de grupos de RAP agora: Procuramos preservar o nacionalismo e não seguir somente o que os americanos fazem observa MC Pirata. Correntes, que trazem símbolos de grupos, e gestos com os braços também fazem parte de um vocabulário peculiar Com a mão pra baixo, significa paz nos guetos. Com a mão pra cima, representa os quatro elementos explica o MC.
Diferentemente do que muitos pensam, o Hip Hop não se limita a criticar a sociedade. Alguns grupos já fazem fusão com o rock e com o samba: Não temos preconceito. Já usei tango, Led Zeppelin, MPB para fazer base no RAP conta DJ KSK, o que também traz um clima mais divertido a algumas músicas.
O ponto crucial para um rapper, segundo a rapaziada do Hip Hop, é ter a consciência do preconceito que irá enfrentar: Se a gente vai a uma churrascaria, guarda dinheiro, e quer comer, eles chamam a polícia. Se por exemplo, o Belinati, que todo mundo sabe que roubou, desviou dinheiro, foi cassado, vai lá, é tratado bem constata DJ KSK. Realmente eles estão afinados com a realidade!





