A CONQUISTA DO PÓLO SUL
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de novembro de 2001
Zeca Corrêa Leite <br> De Curitiba 
Uma história de sonho e determinação narrada pelo protagonista, o capitão norueguês Roald Amundsen, estende-se nas 494 páginas do livro ''Pólo Sul'', publicado pela Editora Alegro, de São Paulo. O capitão conta em detalhes aquilo que aconteceu a partir de 1910 até chegar ao histórico momento vivido nos gélidos e solitários campos antárticos. Foi a 14 de dezembro de 1911 ou seja, a 80 anos atrás que a bandeira da Noruega desdobrou-se e tremulou ao vento, fincada em solo até então jamais explorado.
Roald Amundsen desde a infância alimentava declarado fascínio pelo Pólo Norte, e se propôs a explorá-lo. Estava levantando fundos para a expedição científica que faria na calota superior do planeta, e já tornara pública essa decisão quando em setembro de 1909 a notícia correu mundo: no dia 6 de abril desse ano o explorador norte-americano Robert E. Peary, acompanhado de uma comitiva de mais cinco homens, atingira o Pólo Norte.
Nesse instante o capitão percebeu que seus planos estavam ''à beira do abismo''. Embora não quisesse quebrar recordes, sentiu que o feito de Peary poderia esvaziar o interesse de futuros patrocinadores. Com parte do dinheiro em caixa, não considerou ser gesto desleal dar um novo rumo ao projeto, abandonando a idéia inicial para tomar o caminho do Sul. Foi o que fez: adiou o projeto por um ou dois anos com a finalidade de levantar recursos que ainda faltavam antes de mergulhar na nova aventura.
A essas alturas outro norte-americano, Robert F. Scott, preparava-se para explorar o Pólo Sul. Envolvida em segredo a viagem só se tornou pública quando já estava em seu início e caiu feito uma bomba. Dessa retumbante notícia até que seu objetivo final fosse alcançado, se passariam um ano e oito meses. Cada qual, porém, tinha um trajeto já traçado de acordo com seus estudos. Amundsen escolheu o mais improvável, avançando por caminhos absolutamente desconhecidos. Foi desbravando de acordo com o que a intuição lhe dizia.
O capitão partiria da Baía das Baleias, cruzaria a Barreira de Ross por 700 quilômetros antes de chegar em terra firme. Para atingir o pólo usaria esquis e trenós puxados por cães. Scott, por sua vez, deixaria o Estreito de McMurdo com trenós puxados por pôneis e apoio de veículos motorizados. A parte final do trajeto seria feita a pé, com os homens puxando os trenós.
Amundsen explica em detalhes suas decisões, esmiúça, torna clara cada atitude. Desde o princípio da aventura, tudo é pensado e relatado milimetricamente. A narrativa segue num mesmo ritmo, sem queimar etapas para se chegar mais rápido ao desfecho da viagem. É como um diário, onde se contam os dias com paciência. Mesmo no auge da conquista, não há grandiloquência literária para tornar o feito ainda mais evidente.
O capitão desnuda o momento, sem enfeites: ''Às três horas da tarde ouviu-se um brado de 'Alto!' emitido simultaneamente pelos três condutores. Eles estavam todo o tempo observando cuidadosamente seus hodômetros, e todos eles agora registravam que a distância total já fora percorrida o Pólo era nosso, por todas as medidas terrestres. O objetivo fora alcançado, a viagem terminara''.
Como o esforço para chegar ali fora coletivo, o hasteamento da bandeira foi compartilhado por todos. ''Não era algo para ser realizado por um só homem, mas por todos os que juntos enfrentaram todas as dificuldades e nessa luta apostaram suas vidas. Esse era o único modo com o qual, nessa vasta região desolada, eu podia demonstrar a imensa gratidão devida a meus companheiros'', escreve Roald Amundsen.
Apesar da emoção e da grandeza desse ato, ainda assim havia alguma coisa trincada no peito do capitão. ''Embora saiba que soaria muito mais impressionante romancear a realidade, não posso afirmar que o sonho de minha vida fora realizado'', diz com impressionante sinceridade. ''Devo ser honesto e admitir claramente que jamais houve um homem situado em posição tão diametralmente oposta à realização de seus desejos como eu estava naquele exato instante''.
Ora, desde a infância o Pólo Norte era sua grande atração, e por ele aspirava. Alguém chegou antes e agora ''aqui estou eu, em pé sobre o Pólo Sul. Pode-se imaginar algo mais paradoxal que isso?'' Enquanto o sabor de mel e fel percorriam-lhe a alma, o outro explorador, Robert Scott, enfrentava um clima terrível, numerosas dificuldades no lento avanço a cerca de 600 quilômetros do pólo.
''Pólo Sul Relato da Expedição Antártica Norueguesa a Bordo do Fram 1910-1912''. Narrativa do Capitão Roald Amundsen. A obra faz parte da coleção Mundo Afora, da Editora Alegro.


