Dorico da SilvaAnnelise Luck Tonelli, com as alunas: ‘‘nunca é tarde para aprender’’Falta de tempo, medo de não ser capaz, vergonha de enfrentar colegas bem mais novos, acreditar que já passou da idade de aprender coisas novas... Todas estas desculpas, e mais algumas, são utilizadas secreta e diariamente por centenas de pessoas que adiam - talvez para sempre - a oportunidade de realizar um sonho antigo.
Em contrapartida, porém, sempre há aquelas pessoas que decidem superar todos os obstáculos, reais ou imaginários, e conquistar um sonho. Foi o que aconteceu com um grupo de mulheres que, depois de casadas, com filhos e bem-sucedidas profissionalmente, resolveu deixar de lado as desculpas e aprender a tocar um instrumento musical. Em comum entre elas, apenas a vontade de aprender teclado e a força de realizá-la. Hoje, são amigas e companheiras de aulas da Keynote Escola de Música, em Londrina.
A imobiliarista Leda Luppi Piva, a funcionária pública Sandra Magalhães e a micro-empresária Mieko Ogata Ohara estão na faixa dos 40 anos. Em companhia da professora Débora Rosane Gongora Oyola, 32 anos, formam uma das classes especiais da Keynote. Todas já tinham tido um contato superficial com a música, na infância. Todas deixaram de lado a arte, por muitos anos, por fatores diversos. Cada uma a seu tempo resolveu que era hora de reverter a situação.
Quatro histórias Leda e Débora resolveram se matricular na escola num rompante, sem pensar duas vezes. Há três anos, a imobiliarista estava passeando com os filhos no Catuaí Shopping Center, quando escutou um grupo de alunos da escola fazendo apresentações de teclado num dos corredores do local. ‘‘Estava com meus filhos me enchendo para comprar isto, comprar aquilo, quando escutei uma música maravilhosa. Larguei de fazer compras e fui fazer minha inscrição. Matriculei a mim e meus filhos. Eles desistiram logo e eu continuei. Foi a melhor coisa que fiz’’ - garante.
Débora, por seu lado, diz que estava passando pela calçada da escola quando escutou o som do teclado pelas janelas. ‘‘Fiquei deslumbrada. Entrei, dei uma olhadinha e me matriculei. Sempre quis fazer órgão mas nunca tive oportunidade. Quando vi aquelas pessoas tocando, não resisti’’ - conta. Isto foi há quatro anos e, desde então, nunca mais parou.
Já Mieko, a única da sala com mais experiência na área musical, começou a estudar a música há 18 anos, quando esperava o nascimento do terceiro filho (agora tem cinco filhos). Naquele período, frequentou a Escola de Música Yamaha, onde conheceu a professora Annelise Luck Tonelli, sócia-proprietária da Keynote. Frequentou um tempo e depois teve que parar. Retornou às aulas há quatro anos. ‘‘Desde aquela época fiquei entusiasmada com o método da Annelise. Quando soube que tinha montado sua própria escola, me matriculei’’ - diz.
Sandra, a mais nova no grupo, estuda teclado há dois anos. Queria esquecer as tensões do funcionalismo público e realizar o desejo antigo de tocar um instrumento. ‘‘Eu queria uma atividade que me fizesse relaxar. E a música, para quem quer esquecer os problemas, é gratificante. E poder você mesma tocar uma música que goste é demais’’ - afirma.
Musicoterapia A música, aliás, funciona como uma terapia para estas quatro mulheres. Segundo elas, não há problemas que não pareçam menores depois de uma boa sessão no teclado. ‘‘Meus 20 anos de trabalho como imobiliarista, uma profissão que é uma competição frontal com os colegas, já estavam cobrando uma alta taxa. Vivia tensa, tomando calmante, nem sorria direito. Depois que comecei com as aulas, até deixei os calmantes de lado. Agora, quando fico nervosa, vou para o teclado e esqueço de tudo’’ - diz Leda.
Para Débora, foi a música que ajudou a superar uma fase difícil da sua vida. ‘‘Quando comecei, meu pai estava com problemas sérios de saúde. Eu estava tão tensa que meus ombros eram duros, não conseguia relaxar direito nem para sentar ao teclado’’ - conta. Para ela, foi uma prova de fogo. ‘‘Mas logo eu notei que, além de mim, meu pai também relaxava com a música que eu tocava. Ele chegava a cantar enquanto eu tocava’’ - emociona-se. Hoje, volta e meia, é convidada a tocar órgão na sua igreja.
Para todas, o lado emocional da música é muito importante. O clima de amizade na escola também. ‘‘A gente sabe que vai encontrar aqui pessoas com o mesmo interesse. E o fato de começar a aprender tocando músicas de sucesso e não aquelas coisas bobinhas, é muito estimulante’’ - diz Sandra.
Sem medo Nenhum delas teve medo de, depois de adultas, encarar um novo desafio, embora Débora admita que acreditou ser muito mais difícil. ‘‘Eu tinha acabado de me formar na UEL. Achei que estaria saturada para aprender, que teria muitas dificuldades. Mas estava errada’’ - conta. Leda, porém, afirma que quando viu aquelas crianças pequenas tocando teclado, no shopping, se animou. ‘‘Pensei: se elas podem, eu também posso’’ - conta.
Aliás, o receio de ‘‘pagar mico’’ junto a crianças e adolescentes nunca as preocupou. ‘‘Eu acho até estimulante’’ - diz Leda. Mas a própria escola tem um método de juntar, em uma mesma sala, pessoas compatíveis. ‘‘A princípio ficam em salas comuns, até a gente traçar o perfil de cada um. A pessoa diz apenas o horário que lhe convêm e depois damos um jeitinho de formar turmas compatíveis, mesmo que cada uma tenha um nível técnico’’ - explica Annelise Tonelli. Foi o que aconteceu com as quatro. Segundo ela, nunca é tarde para aprender. ‘‘Nós temos uma aluna de 68 anos, que começou a aprender teclado há pouco tempo. E vai muito bem’’ - afirma.
Depois de tudo o que passaram, Leda resume o pensamento das quatro amigas: ‘‘Bendita hora em que passei por aquele shopping’’.

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