Agência Estado
Um ano antes de morrer, o antropólogo e senador Darcy Ribeiro criou uma fundação com seu nome, para divulgar sua obra e levar adiante seus projetos. Quase três anos após sua morte (que se completam em fevereiro de 2000) o projeto está virando realidade. A Fundação Darcy Ribeiro está preparando o lançamento de um livro inédito,‘‘Histórias Gáticas’’, e o relançamento de outros já esgotados. Além disso, assinou convênio com o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cepedoc) da Fundação Getúlio Vargas, para catalogar mil caixas de documentos deixadas por ele.
Como tudo na vida de Darcy Ribeiro, a criação da fundação foi tumultuada. Não por falta de reconhecimento de sua obra, mas porque não encontrava pouso. A idéia do antropólogo era construir uma casa num terreno doado pela Universidade de Brasília (UnB), mas não houve dinheiro. Pensou-se em mantê-la no apartamento onde ele morava em frente ao mar de Copacabana houve veto do condomínio que não queria muito movimento no prédio.
Finalmente, no fim de novembro, a Fundação foi inaugurada num casarão em Santa Tereza, na zona sul, com uma das melhores vistas da Baía da Guanabara. Com a casa em ordem, a vice-presidente da Fundação, Tatiana Memória, começa a por em prática os planos e sonhos de Darcy Ribeiro. ‘‘Ele não tinha medo da morte, mas temia ser esquecido, deixar de atuar na vida brasileira’’, lembra ela. ‘‘Dois anos antes de morrer, se apressou em lançar tudo que estava atrasado e só sobraram ‘Histórias Gáticas’, que não encontrou editora por ser um livro caro, e o romance Lapa Grande, que ele escreveu muito jovem e não quis publicar porque achava muito ruim.’’
Segundo Tatiana, nos últimos anos de vida, Darcy via muita novela e brincava que ia escrever uma. ‘‘Lapa Grande é uma verdadeira novela mexicana, sem valor literário mesmo’’, comenta ela, garantindo que vai respeitar o desejo do antropólogo e deixar o romance inédito. ‘‘Mas os originais e todos os outros documentos dele estão à disposição dos pesquisadores.’’
Antes de morrer, Darcy conseguiu reeditar alguns de seus livros esgotados. A Companhia das Letras, editora de seu último trabalho, ‘‘O Povo Brasileiro’’, relançou a coleção Antropologia da Civilização e O dilema da América Latina. A Fundação já encomendou do escritor Eric Nepomuceno a complementação de ‘‘Aos Trancos e Barrancos – Como o Brasil Deu no que Deu’’, uma irônica história nacional, do Descobrimento até 1980.
Mas faltam ainda editores para‘‘ O Testemunho’’ e os livros de arte ‘‘Arte Plumária’’ dos Índios Urubu-Kaapor e Kadwel-História dos Índios. ‘‘Quero reeditá-los como da primeira vez e isso custa caro’’, sonha Tatiana Memória.