A compota da vizinha sempre é mais gostosa
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 21 de maio de 2003
Maria de Los Angeles<br> Especial para Folha 2 
Sabe porque ela é mais gostosa? Porque a vizinha teve a paciência necessária para ficar horas cuidando delicadamente deste tipo de doce ao fogo. O resultado será um perfume em forma de fruta, para a sobremesa.
Existem excelentes compotas industriais e artesanais. Uma das coisas mais práticas que esta vida moderna nos oferece é esticar o braço e levar para casa uma deliciosa compota enlatada de goiaba, por exemplo. Já com a dose certa de pectina, esterilizada, feita. Sem complicacões. Desse jeito, é claro que invejamos a arte da vizinha, porque não é fácil de jeito nenhum fazer uma simples, excelente e saudável fruta em conserva. Pois foi justamente uma vizinha, Dona G...., mineirinha no último, que me ensinou a fazer compotas. Graças a ela percebi que as pessoas que nos ensinam alguma coisa sempre estão ao redor, na vizinhança. O ''guru'', o grande professor não está nunca em palestras, workshops, cursos etc. Às vezes não temos ''sentimento'' para perceber na hora mas, regra quase sem excecão, são as pessoas mais próximas, do ''karma'' cotidiano que ensinam algo duradouro. Bem, minha especialista em conservas, Dona G..., dizia: ''Nunca faça a compota numa ferventada só. Cozinhe e adoce lentamente, por vários dias se necessário. Use ingredientes frescos e de boa qualidade. E açúcar mascavo, Maria, não vai fazer uma compota boa.''
Dá para fazer compotas de quase todas as frutas e legumes que existem, e há muitas técnicas, temperos, etc. Aí vai uma mais simples e básica:
Doce de maçã à
moda mineira
(para mais ou menos 1 quilo)
Ingredientes
1 1/2 quilo de maçãs, descascadas e cortadas em cubos grandes/ 2 litros de água fria/ 1 quilo de açúcar cristal/ 1 pedaço pequeno de canela-em-pau, 2 cravos (opcional).
Modo de fazer
Numa grande caçarola, acomode os cubos de maçã, os temperos, a água fria. Comece a aferventar, adicionando um pouco do açúcar. Abaixe o fogo e não mexa com colher. em hipótese alguma, a partir deste estágio. Ferva lentamente por uma hora, acrescentando aos poucos o açúcar. Desligue. Deixe pernoitar na calda rala que se formou. No dia seguinte acrescente o resto do açúcar e deixe apurar até a calda e a fruta ficarem douradas. Esterilize vidros, fervendo-os na água ou no microondas. Guarde a compota nesses vidros, lacrados na boca com filme plástico. Coloque a data do feitio. Uma colher dessa compota, acompanhada com um pedaço de queijo, ou mesmo com carne de ave ou peixe, remete-nos a uma época em que as coisas eram muito verdadeiras, até a inveja da vizinha.
Maria de Los Angeles é chef de cozinha do restaurante Paella Como te Gusta e colaboradora da Folha.


