A competência nordestina
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quinta-feira, 22 de agosto de 2019
Celia Musilli - Grupo Folha 
O grupo Carmin (RN) cativou o público do Filo desde a noite de estreia do espetáculo “A Invenção do Nordeste”, apresentado em duas sessões, na terça (20) e na quarta-feira (21), no Teatro Ouro Verde.
Abordando a divisão entre o sul e o nordeste no país, o grupo dirigido por Quitéria Kelly consegue lidar com um tema espinhoso, se não doloroso - pelo viés do preconceito e da xenofobia - com humor, mas de um modo que a leveza exalta a crítica em vez de amenizá-la.
Para por o dedo numa ferida nacional, o grupo se vale de recursos audiovisuais que um dão uma dinâmica extra ao espetáculo, mas o que cativa, para além da combinação tecnológica, é o trabalho dos atores em cena, um trio carismático.
Buscar o “ser” nordestino vale momentos que remetem a uma bagagem cultural que atravessa o tempo e as obras de ícones nacionais: de Euclides da Cunha a Gilberto Freire, de Ariano Suassuna a Glauber Rocha, numa costura divertida e crítica para demonstrar um preconceito histórico.
O teatro lotado respondeu à altura do trabalho eficiente dos três atores: Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros foram aplaudidos, algumas vezes, em cena aberta.

O mergulho do grupo na tese de doutorado do historiador Durval Muniz Albuquerque, cuja pesquisa foi publicada no livro “A Invenção do Nordeste e outras Artes”, resultou numa encenação fluída que expõe as mazelas perpetradas por um política de coronéis que, apesar de tudo, não conseguiram matar a criatividade, o colorido e a competência de uma região cheia de diversidade.
Um banho de concepção e interpretação teatral que colocou o público em pé não só ao fim do espetáculo para os aplausos de praxe. O público já estava “em pé” antes mesmo da cena final, aplaudindo uma colagem cultural que mostra o quanto seríamos mais pobres, como nação, sem a arte e a inspiração nordestina.



