São Paulo, 11 (AE) - Logo no começo de "Shakespeare Apaixonado", o bardo, em crise, vai parar no divã do analista. É uma brincadeira do diretor John Madden e da dupla de roteiristas Marc Norman e Tom Stoppard. Qualquer espectador com um mínimo de informação sabe que, na época de Shakespeare, ainda não havia psicanálise. A cena é duplamente preciosa: satiriza a mania de interpretar psicanaliticamente os textos do autor elizabetano e prepara o espectador para o clima de fantasia em que se desenrola o filme que estréia amanhã (12).
É o melhor dos filmes do Oscar 99. Se vai (ou não) ganhar a estatueta no dia 21 é outra história. A academia não gosta de comédias e, embora, o humor de "Shakespeare Apaixonado" tenha um arcabouço dramático, não é de duvidar que termine esnobado nas categorias principais, mesmo que esteja indicado para concorrer em 13 delas, apenas uma indicação menos do que os recordes históricos de "A Malvada", de Joseph L. Mankiewicz, e "Titanic", de James Cameron.
"Shakespeare Apaixonado" é uma fantasia, sim. Mas é mentira dizer que suas qualidades decorrem quase todas do roteiro. Por mais brilhante que seja, fica ainda melhor com a direção esperta de Madden, que entendeu o material e fez o filme no tom certo. Para um artista que foi eleito a personalidade do milênio, sabe-se pouco, muito pouco, sobre Shakespeare. Há alguns dados confiáveis (nasceu em Strattford-upon-Avon, casou-se aos 19 com uma mulher de 26, teve três filhos e deixou sua segunda cama de herança para a mulher), mas, de resto, todas as biografias de Shakespeare são especulativas. O diretor Madden e seus roteiristas resolveram interpretar o artista pela sua obra.
Imaginaram um Shakespeare, interpretado por Joseph Fiennes, em crise amorosa e de criatividade no momento em que vai escrever uma comédia intitulada "Romeu e Ethel", a Filha do Pirata. Imaginaram que Christopher Marlowe, seu rival na época elizabetana, lhe deu algumas dicas para desenvolver o que viria a ser a tragédia de "Romeu e Julieta" e imaginaram, mais ainda, que a peça poderia ser baseada nos incidentes reais de um romance que Shakespeare iniciou na época com uma certa Viola, que se disfarça como homem para integrar a trupe de teatro.
É um filme que respira o amor pela representação, pelo teatro. E que estabelece um sutil jogo de travestis e identidades sexuais. Viola (Gwyneth Paltrow, nunca tão bela nem cativante) disfarça-se como homem, os homens são mulheres no palco e a própria rainha Elizabeth I (criação magistral de Judi Dench) diz que sabe o que é ser uma mulher numa função de homem. No filme, a perda de Viola é decisiva para que Shakespeare transforme sua comédia numa tragédia, mas também dá o mote para que, atendendo a um pedido da rainha, ele crie a nova peça (Noite de Reis) com uma heroína que se disfarça de homem e também se chama Viola.
Assistir a "Shakespeare Apaixonado" é puro prazer. E não é necessário conhecer a fundo a obra do autor, por mais que o filme ganhe em sugestões e referências para os iniciados na obra do bardo.

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