A COLEÇÃO NÚMERO UM
O publicitário Ney Alves de Souza tem coleção rara de primeira edição ou de edições piloto de jornais e revistas
Elisa Marilia Carneiro

Mauro Frasson
Ney Alves de Souza e a coleção de revistas: preciosidades que às vezes não passaram do número umA mania de guardar coisas fez com que o publicitário Ney Alves de Souza iniciasse uma coleção curiosa: a de edições números zero e um de revistas e jornais. Hoje, já são mais de 1.800 exemplares, todos catalogados no computador. Um trabalho de mais de 30 anos. A profissão de publicitário incentivou conhecer e acumular as publicações.
As primeiras edições interessaram principalmente pelo inusitado. ‘‘Muitas e muitas dessas publicações ficaram nos números zero e um. Várias dessas não deram certo e estes foram os únicos números que saíram’’, explica.
Os números zero são, em geral, as edições piloto ou experimentais. A revista ‘‘Placar’’, por exemplo, teve quatro números zero. A recente revista ‘‘Voc꒒ (filhote da ‘‘Exame’’) teve oito números experimentais. ‘‘As edições piloto não circulam. São feitas para apresentar o produto aos prováveis anunciantes, para mostrar a linha editorial e gráfica. São um preparo das próximas edições’’, explica.

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Como trabalhava em agências de publicidade, Ney Alves tinha acesso a esses protótipos. O número zero da revista ‘‘Marie Claire’’, de abril de 1991, traz páginas em branco reservadas para anunciantes. Mas já tem um estudo de paginação e de modelo gráfico - a linha editorial. ‘‘O número zero nunca circula. Mostra o que vai ser a revista’’, diz. Mesmo nessas edições saem matérias completas de moda, turismo e beleza. A reportagem principal da ‘‘Marie Claire’’ piloto trata de Lucélia Santos, sob o título ‘‘A guerreira amorosa’’.
Em 1987 saiu a número um da revista ‘‘Super Interessante’’. A revista ‘‘Exame’’, era encartada, em outras. Hoje, já deu três filhotes. A zero da ‘‘Caras’’, tem as principais seções definidas. A capa veio com uma foto sem definição de imagem. A reportagem principal mostra a família do cirurgião plástico Ivo Pitangy em sua ilha em Angra dos Reis (RJ), com várias fotos da família na mais famosa ilha fluminense. Saiu também uma matéria sobre a apresentadora de telejornais ‘‘Valéria Monteiro conquista Manhattan’’. Outra reportagem mostra a atriz Ingra Liberato e Jaime Monjardim.
O número um da ‘‘Caras’’ tem como personagens principais o sócio majoritário da Rede Globo, Roberto Marinho e sua mulher Lili de Carvalho. Além desses, traz várias fotografias de Jackeline Onassis.

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Uma curiosidade que Ney Alves mostra é a revista religiosa ‘‘Bom Pastor’’, de 1988, que numa mesma edição traz os números um e dois. Raridades como as primeiras fotonovelas são guardadas com cuidado pelo colecionador. A fotonovela ‘‘Amar é Compreender’’ tem como atores Regina Duarte e Cláudio Marzo. Traz também uma matéria com Juca de Oliveira com o título: ‘‘Tive cinco noivas’’. Outra, mostra uma declaração da cantora da bossa-nova e jovem guarda Vanusa: ‘‘O casamento não dá felicidade a ninguém’’.
Uma revista que também durou muito pouco foi a ‘‘Jóia’’, da editora Bloch. A número zero é de 30 de dezembro de 1957. Na capa a atriz Tonia Carrero. A revista-guia ‘‘Bondinho’’ (1970) fez sucesso na época. Era distribuída pela rede de supermercados Pão de Açucar, do Rio de Janeiro. A revista ‘‘Lady’’ de outubro de 1956, traz matéria sobre Dinah Silveira de Queiroz.
Um jornal, classificado como ‘‘pretensioso’’ pelo publicitário é um jornal-revista de fim-de-semana de 1971, chamado ‘‘Domingo’’. ‘‘Era uma edição muito grande para a época. Um projeto arrojado, da Bloch. Era feito em papel revista em formato standart de jornal’’.
A primeira ‘‘Desfile’’ saiu em forma de jornal, em 1963. Na capa, a atriz Maria Della Costa, A manchete: ‘‘Governo luta contra débito de um trilhão’’. A Miss Universo Yeda Vargas divide espaço na revista com o presidente americano assassinado, John Kennedy, no título da matéria ‘‘John Kennedy apoiou pressão popular’’. A revista traz reportagem sobre massacre de índios do Xingu. ‘‘A história de Noel Nutels e dos índios brasileiros a quem dedicou sua vida, como foi contada pelo próprio pajé branco ao repórter Antônio Carlos de Carvalho, da equipe de Desfile’’. A matéria da seção de turismo trata das belezas da região amazônica, com uma foto lindíssima de Belém do Pará.
Uma revista de umbanda, não traz nem a data. ‘‘Às vezes é preciso ler o material inteiro para encontrar alguma referência de data’’, diz. ‘‘O Pingo de Jornal’’, da Jips publicidade do Paraná, veio num formato micro-jornal, num tamanho de revista em quadrinhos. Tem também o ‘‘Jornal Dubolso’’, o informativo ‘‘Obaobático’’, da ‘‘menor editora do país’’. ‘‘Foram coisas que não sairam do número zero’’, observa.
A revista do Colorado Esporte Clube, de 1983, chamava-se ‘‘O Boquinha’’. O número um, de 1985, do ‘‘Jornal do Jornalista’’, traz a manchete ‘‘Tancredo briga pela aliança’’, uma reportagem com a cantora Elis Regina e uma carta a Ivan Lins.

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Com um certo cuidado, o publicitário mostra a primeira edição do ‘‘Jornal em Revista’’ feito por uma colunista social curitibana para ela mesma, com fotos ousadas até na capa.
O orgulho do publicitário é o ‘‘Canto do Sino’’, mimeografado em quatro cores. Com noticiários, literatura, gastronomia, esporte e cultura. No expediente quase que só o nome Ney Alves de Souza: redator, editor, datilógrafo, repórter e desenhista.
As edições antigas, segundo o colecionador, eram mais ousadas. Hoje, as publicações são mais dirigidas, para um público específico. Há algum tempo as revistas e jornais não definiam seu público com tanto cuidado, observa Ney Alves. Os textos não são mais tão trabalhados, em compensação o projeto gráfico é bem mais elaborado. Os temas são os mesmos de hoje: humor, moda turismo, futebol, coluna social, curiosidades.
‘‘O problema do jornal foi e será a vida inteira a distribuição’’, analisa. ‘‘Não adianta fazer um jornal super bem feito e não ter uma boa distribuição’’.

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