A civilização tem sede
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de março de 2002
Marcos Losnak Especial para a Folha 
Toda vez que alguém lê um livro ou assiste um documentário sobre os ianomâmis não imagina que para que esse livro, ou documentário, fosse realizado muitos índios tiveram que morrer. Em outras palavras, para que as pessoas conheçam um pouco da vida dos ianomâmis é preciso que a existência e cultura desse povo seja destruída.
Esse absurdo profundamente realista é comprovado pelo jornalista e pesquisador norte-americano Patrick Tierney no livro Trevas no Eldorado lançado no Brasil pela Editora Ediouro. Publicado dois anos atrás nos Estados Unidos e Europa, a obra levantou o cabelo de cientistas, pesquisadores e ONGs defensoras dos direitos índios.
Trevas no Eldorado é uma grande reportagem, dessas que os jornais não estão mais interessados em realizar. Durante dez anos Tierney colheu dados, documentos, entrevistou um punhado de gente, leu tudo sobre o assunto e percorreu a floresta amazônica convivendo com os índios. Tudo isso para mostrar como os ianomâmis serviram de cobaias para antropólogos anti-éticos e jornalistas prepotentes. Grande parte deles estrangeiros em busca de fama e poder.
No livro, Tiermey percorre acontecimentos de 1964 - quando os ianomâmis foram contatados pela primeira vez - à 1999. Na antropologia, os ianomâmis que habitam a região amazônica entre o Brasil e a Venezuela são os últimos nativos do mundo que permaneceram isolados sem contato com o mundo civilizado. Eram considerados uma espécie de elo perdido vivo entre o homem contemporâneo e o homem da Idade da Pedra.
Nesse contexto, cientistas e jornalistas caíram, literalmente, em cima dos ianomâmis. Entre os vários antropólogos que começaram estudá-los estava o norte-americano Napoleon Chagnon, que se tornou uma personalidade famosa no meio acadêmico por defender a tese de que eles eram os selvagens mais violentos de que se tinha notícia. Sua tese derrubava justamente o conceito do bom selvagem e passou a ser utilizada pela sociobiologia.
Chagnon fez escola, tornou-se uma referência na antropologia contemporânea. Mas sob um preço alto, com a devastação de um povo. Entre as inúmeras façanhas de Chagnon reveladas em Trevas do Eldorado, basta citar algumas. A maioria dos documentários que realizou com os ianomâmis, por exemplo, e que foram vistos por milhares de pessoas pelo mundo afora são falsos. Ele simplesmente pagava para que os índios fizessem o que mandava diante das câmeras. Fabricou guerras, combates, construiu aldeias para filmar o que desejava. Tudo para provar sua tese acadêmica.
Sob o patrocínio da Comissão de Energia Atômica (AEC) dos Estados Unidos, coletou (na verdade roubou) centenas de amostras de sangue dos nativos - que se tornaram propriedade daquele país. O objetivo era realizar experiências sobre as consequências da radiação atômica no organismo de povos geneticamente puros. Como se não bastasse, sob a hipótese de epidemia de sarampo em várias aldeias, vacinou os indígenas com uma vacina considerada ultrapassada (com vírus ativos) inadequada para a situação. Como resultado, transmitiu, através da vacinação, sarampo para toda a população, dizimando metade dos nativos.
Patrick Tierney oferece tantas informações, todas com comprovação de fonte, que fica difícil ter alguma esperança de que os selvagens um dia possam ser respeitados como seres humanos. A ciência e o jornalismo, nos últimos trinta anos, fizeram com os ianomâmis o mesmo que os colonizadores portugueses e espanhóis fizeram com as centenas de nações indígenas durante a colonização da América do Sul. Simplesmente passaram o trator por cima. Parece que a civilização ainda tem sede de selvagens.
Serviço:
Trevas no Eldorado, de Patrick Tierney, Editora Ediouro, tradução de Bentto Lima, 526 páginas, R$ 43,50.


