Hogwarts que se cuide. Se depender de Roger Highfield, qualquer ser letrado saberá as magias ensinadas na escola de bruxos frequentada por Harry Potter e seus amigos. Highfield, membro de um comitê para a ciência e sociedade da Royal Society de Londres e editor de ciência do jornal britânico ''The Daily Telegraph'', é autor de ''A Ciência de Harry Potter - Como a Mágica Realmente Funciona'' (Editora Campus, 308 páginas), lançado na onda do segundo episódio cinematográfico do pequeno bruxo, em cartaz no Brasil.
O livro mostra o que há de realidade no mundo de Potter, criado pela escritora J. K. Rowling. Para isso, o autor entrou em contato com mais de uma centena de cientistas de diversos países. Depois, dividiu seu trabalho em dois. A primeira parte do livro compõe uma espécie de estudo científico sobre o mundo da magia, com explicações para tudo, do quadribol à vassoura voadora, dos feijões de Bertie Bott ao Chapéu Seletor. A capa de invisibilidade, por exemplo, não é tão irreal assim: fibras óticas poderiam compor sua trama - há até um grupo de Trouxas (não-bruxos) trabalhando nisso.
A segunda metade trata das fontes de inspiração para a criação de personagens, magias e situações. Crenças, mitos, lendas, bruxarias e afins, diz o escritor, explicam as galinhas místicas, pombos supersticiosos e dragões - que, jura ele, existem, sim (ou, ao menos, podem existir). O grifo, por exemplo, foi inspirado nos restos de uma espécie de dinossauro, o Protoceraptor, enquanto o Fofo (o cão de três cabeças de Hagrid) poderia ser criado através de engenharia genética. Quanto à levitação, bem, isso é obra de alucinógeno mesmo. Supõe-se que, antigamente, as bruxas tomavam uma poção muito suspeita, ficavam doidonas e acreditavam que podiam voar.
Para Highfield, os Trouxas não são tão trouxas assim. Afinal, cita ele, já podemos até atravessar paredes como fantasmas. Ok, é um truque, criado pelo finlandês Ismo Rakkolainen, mas muito bem feito: através de uma técnica especial, criam-se telas feitas de camadas lisas de neblina, em que projeta-se uma imagem de tijolos. E, cá entre nós, Trouxas, estamos à frente em alguns aspectos. Por exemplo, por que Potter usa óculos, quando se pode fazer uma cirurgia corretiva a laser?
Mas, se você assistiu ao primeiro filme e, como dez entre dez pottermaníacos, também desejou profundamente ganhar a sua Nimbus 2001 (vassoura voadora ultra-rápida, páreo apenas para a Firebolt), lamentamos informar: os Trouxas ainda não entendem muito bem a magia das viagens aéreas. Seria preciso desenvolver uma vassoura com tecnologia avançadíssima, que desafiasse o puxão gravitacional da Terra.
''Até mesmo a NASA já se pronunciou sobre a propulsão da vassoura'', relata o autor. Ele cita um documento do centro de pesquisas aeroespaciais norte-americano redigido por Mark Millis, o (prepare o fôlego) Gerente de Projeto, do Projeto de Física Inovadora da Propulsão, do NASA Glenn Research Center em Cleveland, Ohio, reconhecendo que a NASA está investigando o assunto, ''nas fronteiras da física''.
Mas falta muito para entender o desempenho da Firebolt, que vai de zero a 240 km/h em dez segundos (feito semelhante ao de um dragster de 6.000 cavalos). Highfield cita diversos cientistas e pesquisas na área da antigravidade, mas todos esbarram em incógnitas.
Para consolar (ainda que isso dê a sensação de ganhar o brinquedo errado no Natal), já temos os nossos bisbilhoscópios. Assim como em Hogwarts - lá eles têm o Bisbilhoscópio de Bolso, que apita, acende e gira quando alguém que não inspira confiança se aproxima, ou o Sensor de Segredos, uma antena dourada que vibra quando a pessoa mente -, nós, os Trouxas, temos aparelhos que ''dedam'' quando as palavras não condizem com o pensamento.
Uma das técnicas consiste em colocar eletrodos na cabeça da pessoa e monitorar a atividade cerebral. Outras medem pressão sanguínea, respiração e transpiração. Mas a melhor, que dispensa a colocação de eletrodos, fios ou qualquer parafernália no suspeito, foi descoberta por James Levine e Ioannis Pavlidis, nos Estados Unidos. Com uma câmera térmica de alta definição, pode-se ver que, quando alguém mente, o fluxo sanguíneo ao redor dos olhos aumenta. A explicação está no nosso lado instintivo: ao mentir, o corpo libera adrenalina, e isso pode ter evoluído para uma preparação em caso de emergência. O corpo bombearia mais sangue para os olhos para que estes procurassem a melhor rota de fuga.
Entre os animais fantásticos, talvez os dragões sejam os mais citados nos romances e aventuras de ficção. E no universo criado por Rowling não é diferente: lá estão eles, a cuspir fogo e em diversas espécies. Há o rabo-córneo húngaro, o focinho-curto sueco, o meteoro-chinês, o olho de opala. Highfield relata que até a revista ''Nature'', prestigiadíssima no meio científico, já publicou um artigo sobre essas criaturas, escrito pelo biólogo e matemático Bob May. Um louco? Não. May é atualmente o presidente da Royal Society de Londres. Segundo ele, não vemos mais dragões porque foram levados à extinção pelo homem, por ''exploração comercial, principalmente para fins farmacológicos''.
''Sabemos por que os dragões parecem tão reais para os Trouxas. Embora sejam, em última análise, produtos da imaginação humana, sua inspiração veio de criaturas extraordinárias que já andaram sobre a Terra'', sustenta Highfield. ''A invenção de dragões, trasgos, gigantes e outros monstros ajudou para que nossos ancestrais entendessem algumas observações e descobertas muito intrigantes, desde cornos e ossos de gigantes até luzes e movimentos no céu, ou pedras de formato regular, não existentes na natureza.''
Ninguém sabe como Fofo escapou da Comissão para Eliminação de Criaturas Perigosas, mas é possível ao menos supor qual foi a inspiração para o seu surgimento. Segundo a fábula de Rowling, Hagrid comprou o cão de três cabeças com olhos que giram de um grego que conheceu num bar. Esta é presumivelmente uma referência às origens de Fofo na mitologia grega, diz Highfield: ''Cérbero, o cão de três cabeças que guarda as regiões infernais e que, como Orfeu descobriu, poderia ser domado com o som da lira''.
A referência é mitológica, mas a criação é possível do ponto-de-vista científico: além de eventuais mutações espontâneas (como o recente caso do bebê brasileiro), cientistas já descobriram formas de manipular genes de forma a instruir células para formar uma cabeça a mais em determinado corpo. Mas não entre em pânico: por enquanto, pesquisas assim modificaram apenas sapos, e os envolvidos admitem que conseguir os mesmos resultados em mamíferos e animais de maior porte é algo ainda inacessível.
Isso, claro, para os Trouxas. Os bruxos, admitamos, estão a anos-luz de nós - e talvez porque detêm muito mais tecnologia. É como disse Arthur C. Clarke, um dos mais celebrados escritores de ficção científica (pai de ''2001 - Uma Odisséia no Espaço''), na frase que abre ''A Ciência de Harry Potter'': ''Qualquer tecnologia que funcione perfeitamente dá a impressão de magia''.

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