A cidade que viu os
últimos dias de Van Gogh
Ascânio Seleme
Agência Globo
ReproduçãoAlbergue Ravoux, em Auvers: pensão mantém intacto o quarto onde Van Gogh morreuDeixe-se impregnar pelo espírito de Vincent Van Gogh. Aproveite um dos intervalos dos jogos do Brasil na Copa do Mundo para conhecer Auvers-sur-Oise, a cidade onde Van Gogh viveu seus últimos meses e onde deu um fim à sua vida com um tiro no peito. Auvers-sur-Oise fica a 30 quilômetros do centro de Paris.
O albergue Ravoux, em que Vincent Van Gogh se hospedava, manteve intacto o quarto onde o grande pintor holandês dormia. Nesse minúsculo aposento de seis metros quadrados, Van Gogh foi encontrado pelo dono do albergue agonizando, com o peito ensanguentado. Nas paredes do quartinho estão ainda hoje os buracos dos pregos onde Vincent secava suas telas. O restaurante do Albergue Ravoux mantém o mesmo cardápio dos dias de Vincent. O ambiente transpira a derradeira história de um dos mais talentosos gênios do Impressionismo.
Nas dez semanas que viveu em Auvers, Van Gogh pintou 80 telas. Algumas magníficas, como os dois retratos do Dr. Gachet, um psiquiatra amigo dos impressionistas e o último verdadeiro admirador da obra do genial pintor. Outra tela conhecida no mundo inteiro, ‘‘A igreja de Auvers’’, também foi produzida na cidade. Visitar Auvers e reconhecer os ângulos escolhidos por Van Gogh para fazer seus quadros é um dos melhores programas.
Em maio de 1890, Vincent mudou-se de Paris para Auvers-sur-Oise para poder respirar e retratar o campo que não encontraria na capital francesa. As cores da primavera enchiam os olhos e a telas do artista. Ele pintou jardins, casas, escadas, retratos, a igreja em diversas abordagens, o campo. Tudo o que o pintor afirmava amar na natureza ele encontrou nessa pequena e pacata cidade ao norte de Paris.
Em uma das suas muitas cartas ao seu irmão Theo, Vincent disse que vivia ali um dos momentos mais felizes da sua atribulada vida. Disse ao irmão que o doutor Gachet, que o convencera de ir passar uma temporada em Auvers, era uma pessoa admirável que se parecia muito com ele mesmo, Vincent. O pintor vivia e pintava.
‘‘Monsieur Vincent’’, como Van Gogh era chamado pelo dono e pelos empregados da hospedaria, comia em seu quarto, jamais no restaurante do Albergue Ravoux, por falta de dinheiro. Ele pagava 3,95 francos por dia de hospedagem. Suas manhãs e tardes pareciam tranquilas e restauradoras. Mas não era bem assim que o espírito de Van Gogh de fato se comportava. Na noite de 27 de julho ele daria um tiro fatal no peito. Estava no campo e ainda encontrou forças para ir até o hotel e recolher-se em seu aposento. Encontrado agonizante tarde da noite por Arthur Ravoux, o dono da hospedaria, Vincent morreria aos 37 anos na madrugada de 29 de julho, nos braços do irmão Theo que viera de Paris. Vincent Van Gogh foi enterrado no pequeno cemitério de Auvers. Seus restos mortais permanecem lá, ao lado dos do irmão Theo, que faleceria em janeiro de 1891.
O caixão de Vincent Van Gogh foi transportado até o cemitério por uma parelha de burros alugada na cidade vizinha de Méry-sur-Oise, já que o abade Tessier de Auvers recusara-se a ceder a carruagem funerária local para transportar o corpo de um suicida. São dois túmulos simples, cobertos pela vegetação rasteira. Duas pequenas lápides descascadas informando que ali repousam Vincent e Theo Van Gogh.
A visita ao cemitério, que fica a 200 metros da igreja de Auvers, é uma das etapas mais emocionantes da visita à cidade. É difícil sair de Auvers, ao final de um dia de viagem aos últimos momentos de Van Gogh, sem sentir o coração um pouco pesado. Triste. Depois desse dia, a imagem de Vincent estará gravada para sempre na memória de quem ama a sua obra.
O pintor, que em vida só vendeu uma única tela e que hoje é o mais caro dos impressionistas, um dia escreveu de Auvers para o seu irmão Theo: ‘‘Acredito que ainda encontrarei uma forma de fazer uma exposição de obras minhas num Cafe’’. Essas palavras ecoam no pequeno aposento onde Vincent viveu seus últimos dias e morreu de maneira dramática. A viagem que você fará a Auvers-sur-Oise será inesquecível.

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