Pela primeira vez alunos da Apae puderam participar do projeto; cerca de 20 alunos de idades entre 16 a 53 anos fizeram o roteiro na região central
Pela primeira vez alunos da Apae puderam participar do projeto; cerca de 20 alunos de idades entre 16 a 53 anos fizeram o roteiro na região central | Foto: Anderson Coelho



No campo da educação institucionalizada, existem diversas teorias de aprendizagem mundo afora. Em geral, são baseadas em modalidades cognitivas, afetivas e psicomotoras. Sendo assim, o sistema educacional brasileiro organizou tais conhecimentos e saberes em disciplinas curriculares, cada qual garantindo um olhar sobre o mundo em que vivemos. Dentre as teorias, está a "aprendizagem significativa" (The Psychology of Meaningful Verbal Learning), do psicólogo da educação norte-americano David Ausubel, que publicou seus primeiros estudos durante as décadas de 1960 e 1970. Neste modelo, o conceito central passa por um processo por meio do qual uma nova informação relaciona-se – de maneira substantiva (não literal) e não arbitrária – a um aspecto relevante da estrutura de conhecimento do indivíduo.

A teoria de Ausubel foca a aprendizagem cognitiva e, como tal, propõe uma explicação teórica do processo de aprendizagem. Na definição, o psicólogo define estruturas cognitivas como estruturas hierárquicas de conceitos que são representações de experiências sensoriais do indivíduo. Ou seja, a partir de um conceito geral (já incorporado pelo aluno), o conhecimento pode ser construído de modo a interagir com novos conceitos, o que facilita a compreensão das novas informações e traz significado real ao conhecimento adquirido. Em outras palavras é dizer que os novos conhecimentos relacionam-se com o conhecimento prévio que o aluno possui, de forma que a aprendizagem significativa no processo de ensino necessita fazer algum sentido para o aluno.

Sendo assim, existem diversas ações que visam a integração entre as modalidades cognitivas, afetivas e psicomotoras em que estão incluídos, por exemplo, conceitos como "cidade educadora" e "territórios de aprendizagem", disseminados na Espanha na década de 1990. Desde então, esses conceitos têm ganhado cada vez mais visibilidade em discussões sobre inovação na educação e aprendizagem significativa. Em Londrina, a Secretaria Municipal de Educação desenvolve, desde 2002, o projeto "Conhecer Londrina" que atende alunos da rede municipal para uma aula baseada no percurso histórico da cidade. O projeto é desenvolvido, essencialmente, com estudantes do quarto ano por terem a cidade de Londrina como conteúdo nas disciplinas de História e Geografia.

O Museu Histórico Padre Carlos Weiss também esteve entre os locais visitados pelos alunos
O Museu Histórico Padre Carlos Weiss também esteve entre os locais visitados pelos alunos | Foto: Saulo Ohara



Segundo Eliane Candotti, integrante da equipe pedagógica da secretaria e coordenadora do projeto, "Conhecer Londrina" possibilita que os alunos realizem roteiros com trajetos para explorar a cidade por locais históricos e importantes de Londrina tais como Marco Zero, Rodoviária, Relógio do Sol, Museu Histórico Padre Carlos Weiss, Catedral, Bosque, Correios, UEL (Universidade Estadual de Londrina) e, mais recentemente, zona rural. "Nesse trajeto falamos sobre o que está por trás dos elementos da cidade pelo viés social, histórico e geográfico, contemplando questões como arquitetura, texturas, cores, cheiros, sons, tanto pelos seus aspectos positivos quanto pelo que precisa ser melhorado. Todos esses elementos trazem vivências e indagações", detalha.

Portanto, conforme ela, o objetivo é, literalmente, experimentar a cidade de várias formas a partir da visão de cada um que vai se apropriar de forma individual com diferentes leituras. "O mais importante é que consigamos transmitir o conhecimento por meio de um vocabulário acessível voltado ao olhar lúdico e sensorial. Do contrário, serão mais informações que não fazem sentido." E para que tudo aconteça de maneira cíclica, antes do percurso propriamente dito, os professores da rede recebem formação teórica e prática para que aperfeiçoem seus conhecimentos sobre os pontos da cidade a serem explorados. "Com isso, cada professor consegue trabalhar os temas previamente em sala de aula de acordo com seu objetivo e material didático disponível, de maneira que esteja relacionado com o roteiro escolhido.

Lições sobre os primeiros habitantes foram repassadas junto ao Memorial dos Pioneiros
Lições sobre os primeiros habitantes foram repassadas junto ao Memorial dos Pioneiros | Foto: Anderson Coelho



CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA
Pela primeira vez o projeto "Conhecer Londrina" atendeu alunos da Apae (Associação Pais Amigos Excepcionais de Londrina). Cerca de 20 alunos do EJA (Educação de Jovens e Adultos), de idades entre 16 a 53 anos e com diversos tipos de deficiência, puderam participar do roteiro na região central de Londrina, passando por locais históricos, ainda que houvesse todas as dificuldades de acessibilidade. "A cidade pode ser considerada educadora porque ela nos pertence e participamos da sua construção a todo momento. Com alunos da Apae não é diferente. Para eles, conhecer a cidade é um momento de ampliar o repertório de vivência pelo despertar da curiosidade. Ao mesmo tempo, acaba despertando um olhar da própria sociedade para a importância deles na construção do conceito de cidadania", diz a pedagoga Renata Almeida.

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