São Paulo - Quando a arte resolve discutir a cidade - palco de conflitos sociais - o que está em jogo, em termos de questões artísticas, pode ser tão importante quanto a própria causa sobre a qual se deseja fazer uma reflexão. Por exemplo, se um artista tira da cidade um muro de tijolos e o leva para o museu de arte, mais do que um simples deslocamento, ele pode estar fazendo uma operação em que a realidade é retirada de seu contexto e colocada em outro, como uma raiz transplantada. Só que ao invés de servir a um determinado fim, sua referência agora será outra, poética, como quem diz, eis a realidade dos fatos, nua e crua.
Mas também pode ocorrer do artista resolver fazer um trabalho artístico no meio de uma praça na cidade, só que em vez daquilo ser fruído como arte, pode acabar servindo como material para o uso das pessoas que ocupam aquele espaço. Tanto uma possibilidade quanto a outra, podem se constituir em trabalhos eficientes quanto a proposta a que são desafiados, ou mesmo ingênuos em seu modo de lidar com a questão.
São Paulo, por estes dias, está tendo o privilégio de sediar dois grandes eventos com obras cujos desafios são, exatamente, os de lidar com este complexo território em que se transformaram as cidades. De um lado a 25ª Bienal Internacional, no Parque do Ibirapuera, com o tema ‘‘Iconografias Metropolitanas’’ e do outro o arte/cidade 4, na Zona Leste, produzido por Nelson Brissac, que convidou artistas nacionais e estrangeiros para intervirem neste espaço urbano caótico, recheado de camelôs, catadores de papel, mendigos, comércio barato, viadutos, ruínas, cortiços e ocupação desordenada. São vários trabalhos em diversos pontos, com a proposta de pensar a arte a partir destas realidades. Locais que nem imaginávamos ser possível existir fazem valer a visita, mesmo que muitos dos trabalhos apresentados não dêem conta do contexto no qual estão inseridos. No fim, a estratégia de cada artista para essas ocupações se transforma em tema para um longo debate. Atual e necessário.
O outro evento, a Bienal, com 190 artistas de 70 países diferentes mostra que, se até os problemas vividos nas cidades estão padronizados no mundo todo, a capacidade de apreensão que a arte tem sobre eles - mesmo que o foco seja idêntico, como a questão da identidade - não se deixar moldar por uma mesma forma e cânone artístico. Aliás, nunca a diversidade das propostas poéticas por parte dos artistas chegou a ser tão intensa. Mesmo que a sensação do exílio - raízes transplantadas - seja igual para uma artista iraniana em Nova Iorque ou para um mendigo vivendo debaixo do viaduto do Glicério, em uma metrópole como São Paulo.
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