No interior do Paraná existe um lugar encantado, localizado acima de uma cidade sagrada coberta pela terra. Esse local sobreviveria ao fim do mundo, marcado para 28 de dezembro de 1999. Neste dia, a cidade viria à tona imune ao fogo que arrasaria o planeta.
Convicto destes preceitos, o lavrador José de Freitas Miranda vendeu dez alqueires de terra para investir em cimento e ferro. O material foi usado para concretizar sua obra: a preparação de um local que resistisse ao fim do mundo, segundo visões e mensagens divinas que alegava receber.
José de Freitas Miranda viveu em Jupira, povoado próximo a Colorado, no Paraná, e ali erigiu seu trabalho. Em 1960, aos 37 anos, ele teria começado a receber mensagens que o orientavam para a construção de um terreno imune ao juízo final.
José construiu um complexo com igreja, bancos, quiosques, muitas estátuas, postes e outras estruturas. Na década de 70 o local se tornou uma espécie de santuário, recebendo romarias – foi, inclusive, tema de uma reportagem do ‘‘Fantástico’’. Mas os anos se passaram, José ficou cego e morreu em 1995. O lugar ficou praticamente abandonado, com peças destruídas pelo tempo ou pela depredação.
A história do lavrador é retratada no documentário bilíngue (português/inglês) ‘‘O Sino da Alvorada’’, dirigido por Silmara de Oliveira Fernandes. Com cerca de 20 minutos de duração, a fita narra a trajetória de um homem atormentado e severo, disposto a cumprir à risca o que considerava uma missão.
‘‘O Sino da Alvorada’’ estreou dia 8, em duas sessões, no Museu da Imagem e do Som de Curitiba e já foi exibido no programa ‘‘Grande Angular’’, da TVE de Curitiba e, em breve – a data ainda não foi definida –, será apresentado no programa ‘‘Zoom’’, da TV Cultura de São Paulo. Em outubro a peça vai participar de um festival em Colônia, na Alemanha. O vídeo também vai fazer parte do Comboio Cultural da Secretaria de Cultura do Estado, e será apresentado em Jupira no dia 3 de junho, às 20 horas.
Com uma câmera em movimento constante, ‘‘O Sino da Alvorada’’ mistura estética de produção artística à forma documental da cinebiografia. A iluminação é natural e as imagens apresentam detalhes do local construído por José de Freitas Miranda, com depoimentos de Antônia Miranda – irmã do agricultor, e Valdomiro de Freitas, filho de José.
A obra tomou forma quando, após conhecer o local, Silmara Fernandes entrou em contato com a secretária estadual de Cultura Lúcia Camargo para avisá-la sobre a deterioração das obras. ‘‘A secretária me disse que não sabia dessa história, eu expliquei a existência do lugar e falei que o que eu podia fazer era um documentário’’, comenta Silmara.
Com apoio da Secretaria, o projeto ganhou forma. ‘‘Nós queríamos interferir o mínimo na obra dele, na história e em tudo o que está ali. Mostrar o trabalho já diz tudo, quem vê tira suas próprias conclusões’’, explica Fábia Machado, assistente de direção e editora do vídeo.
As imagens mostram um universo conturbado, desenvolvido em um messianismo obsessivo. José de Freitas escrevia as mensagens que recebia em um livro, e depois as reproduzia em todos os lugares imagináveis: paredes, placas, postes e até no revestimento de três poços.
Os movimentos de câmara surgiram naturalmente: ‘‘É pessoal, gosto de fazer andando, não tem essa de fazer tudo certinho. É assim que é o lugar de dia, é assim que ele parece’’, ressalta Fábia. O trabalho demorou dois anos para ser concluído.
Ambas não voltaram a Jupira após as gravações, e não sabem como as pessoas do vilarejo encararam a passagem do dia 28 de dezembro. ‘‘Eles não gostam de falar no assunto, mas o dono do bar de lá me disse que seu bar fica ao lado de um museu. José de Freitas Miranda fez tudo sozinho, não deixava ninguém ajudar’’, completa Silmara.
Entre as obras construídas pelo lavrador estão várias estátuas, acomodadas no que sobrou de uma casa do local. Várias delas reproduzem o semblante de José. Segundo um dos depoimentos do documentário, esta foi a causa da cegueira. Ele ficava horas se olhando no espelho, contra o reflexo do sol, para esculpir seu próprio rosto.
Enquanto ainda não definem uma data para a exibição de ‘‘O Sino da Alvorada’’ em Londrina, Silmara e Fábia procuram patrocínio para os próximos projetos, entre eles o curta de ficção em super-8 ‘‘Meu Coração a Teus Pés’’, baseado na obra do escritor alemão Heiner Muller. Os projetos incluem ainda a transformação da peça ‘‘Valsa nº 6’’, de Nelson Rodrigues, em outro curta. O espetáculo vai estrear em Londrina no dia 24, com direção de Carla Diacov.
‘‘O Sino da Alvorada’’ tem fotografia de André de Paula e Fábia Machado; música de Bach e Koussevitsky interpretada por Angiolina Sensale e Milton Masciadri; edição de Fábia Machado e Silmara Fernandes; Alexandre Caramori como técnico de edição e Kilda Maria Prado Gimenez na legendagem. O filme é patrocinado pela Secretaria Estadual de Cultura, TVE, LPR e Studio Kobra.

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