A cerâmica original de Senhorinha
As panelas da artista plástica Senhorinha Romão da Costa estão por um fio para desaparecer. Com 80 anos e doente, Senhorinha deve driblar a tradição e passar sua experiência de vida com a arte da cerâmica para uma sobrinha. A arte das panelas em cerâmica é um legado que deve passar de geração em geração da mãe para a filha primogênita. Mas ela não teve filhas.
Desde os primórdios - civilizações inca, asteca e maia, fenícias, assírias e babilônicas - a técnica da cerâmica cumpre rituais requintados. Segundo a artista plástica Liz Szczepanski, na Baía das Laranjeiras, às margens do Rio Medeiros, em Guaraqueçaba (litoral do Estado), só Senhorinha cumpre ainda esses rituais. A manufatura das panelas é a mesma herdada dos índios guarani e é similar à técnica pré-incaica. Senhorinha é a quinta geração, de que se tem conhecimento, que recebeu a herança da cultura cerâmica desenvolvida pelas grandes civilizações.
Cada panela produzida por Senhorinha é única. Originalmente, esses objetos tinham função na cozinha, mas hoje, com a produção praticamente zerada, as panelas só são encontradas depois de muita busca. Senhorinha utiliza sempre a argila do mesmo barreiro que a mãe, avó e bisavó usavam. Essa matéria-prima é retirada do fundo do rio pelos homens da família, que também são responsáveis pelo controle do forno, conta Liz.
O fabrico das panelas só tem sentido se os objetos tiverem uma função ou para quem a técnica ser confiada. Mas as panelas de alumínio invadiram as casas de pescadores de Guaraqueçaba e Senhorinha não tem mais para quem passar o ofício. Assim, esta arte milenar, que engloba tanto aprendizado, está fadada ao esquecimento.(E.M.C.)





