A CENSURA RONDA AS HQs
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de novembro de 2000
Nelson Sato De Londrina 
A censura ronda o universo dos quadrinhos. Nunca, ao longo desta década, se proibiu e tesourou tantas revistas como nesta temporada. A mais recente vítima é a saga Do Inferno (From Hell), de Alan Moore e Eddie Campbell, que teve sua sétima edição apreendida na alfândega na Austrália engrossando uma já respeitável lista de títulos vetados.
O pacote de exemplares foi retido por determinação do órgão de classificação de filmes e publicações do país. Segundo um site especializado da Internet, os fiscais australianos consideraram algumas imagens excessivamente violentas, em particular uma passagem em que são cortados os seios de uma mulher morta. Campbell argumentou em vão que a cena em questão reproduzia um fato histórico, além de ser ambientada num contexto onde um médico e seu superior conduzem uma autópsia.
Do Inferno conta a história de Jack, o Estripador, um serial killer que aterrorizou a Inglaterra em 1888. O primeiro número foi lançado há poucos meses no Brasil pela editora Via Lettera. A saga completa tem 16 partes. Foi publicada originalmente em 1995 na Inglaterra, onde recebeu o prêmio principal do Eisner Awards, uma espécie de oscar dos quadrinhos. Este ano, foi reeditado em um único volume.
Alan Moore, o roteirista, sofreu outras duas investidas censórias nos últimos meses. As duas envolveram o manda-chuva da DC Comics, Paul Levitz. Numa delas, o executivo impôs uma alteração num episódio da série Tomorrow Stories, que trazia referências ao autor de ficção científica L. Ron Hubbard e ao escritor e ocultista John Whiteside Parsons. Na outra desavença, Levitz mandou destruir todos os exemplares da edição número 5 da revista League of Extraordinay Gentleman, criado e escrito por Moore.
O motivo era a reprodução de um anúncio da Era Vitoriana para uma imaginária Marvel Douche Company (Companhia de Duchas Marvel), onde aparece a palavra vagina. A rixa fez com que Moore desautorizasse a DC Comics de relançar em 2001 uma edição especial encadernada de Watchmen, sua obra máxima e cuja republicação comemoria 15 anos de aniversário.
Outro artista que andou se pegando nesta temporada com os superiores foi Warren Ellis, que pediu o boné do selo Vertigo (segmento de quadrinhos adultos da DC Comics) depois que uma de suas histórias recebeu um xis antes de ir para a gráfica. A trama, desenhada por Phil Jimenez, ia sair na edição número 141 da cultuada revista Hellblazer.
Intitulada Shoot, a história tratava em tom de denúncia do problema das armas de fogo nas escolas norte-americanas. Acontece que a abordagem do tema tomou ares inflamáveis nos Estados Unidos desde o massacre da Escola de Columbine, em Littleton, Colorado. O pânico se irradiou entre alguns setores da população e a mídia passou a discutir as eventuais más influências da TV, cinema, games, música e quadrinhos na formação dos adolescentes.
As grandes empresas de entretenimento tornaram-se alvo de críticas e tiveram que tomar precauções utilizando a tesoura a torto e a direito. Mesmo assim, milhares de fãs de John Constantine (o anti-herói de Hellblazer) puderam ver as 22 páginas mutiladas acessando a Internet (http://www.compsoc.man.ac.uk//~jp/comics/shoot/index.html).
O mesmo ocorreu com a revista Supermans Baby-sitter, desenhada por Kyle Barker e também lançada pela DC. A história mostrava a infância do homem de aço em travessuras pouco recomendáveis como se jogar pela janela, morder fios desencapados e coisas do gênero. Sob o argumento de que leitores mirins poderiam querer imitar o super-herói, a publicação foi recolhida e destruída.
Posteriormente foi pirateada e veiculada na web. O curioso é que a história conquistou dois prêmios no Eisner Awards, o que levou a DC a anunciar uma futura reedição.


