Nelson Sato
De Londrina
O universo clubber foi devassado pelas letras. O livro Babado Forte – Moda, Música e Noite, de autoria da jornalista Erika Palomino, recapitula os principais episódios, personagens e tendências que estabeleceram a cultura club no Brasil.
É quase uma bíblia dos anos 90. Chega ao público pela editora Mandarim trazendo mais de cem entrevistas, reunidas em quase três anos de pesquisa e redação. Boa parte do que é contado nas páginas saiu dos arquivos do jornal Folha de S.Paulo, onde há sete anos Palomino mantém uma coluna especializada no assunto.
Seu relato é minucioso, descrevendo em detalhes as trajetórias de diversas casas noturnas de São Paulo e do Rio de Janeiro. Abre o volume lembrando de como se iniciou no mundo das pistas, quando ainda era uma pirralha e vivia faturando concursos de dança durante a época das discotecas. Passa logo em seguida a contar a saga dos principais clubes que garantiram a diversão de toda uma geração.
Lembra do Madame Satã, nos anos 80. ‘‘Quem hoje é alguém na vida da cidade, passou – de preto – pela casa’’ – exagera ela, numa passagem. Recorda do Nation, célebre casa noturna localizada nos fundos de uma galeria comercial, em plena Rua Augusta e que estabeleceria – segundo ela – ‘‘os fundamentos de tudo o que hoje entendemos como cultura club’’.
Foi na Nation que nasceu o grupo Que Fim Levou Robin? Foi ali também que teria aparecido – ainda de acordo com a autora – as primeiras cápsulas de Ecstasy na capital paulista. Por meio do DJ Renato Lopes, que dividia a discotecagem com Mauro Borges, a house music começava a penetrar nos clubes paulistanos ecoando o que já despontava nas grandes cidades do mundo.
Depois do Nation, vieram o Massivo, a Sra. krawitz, o Hell’s, o B.A.S.E, o Florestta e as raves. Ao focalizar a cena carioca, a autora traz de volta as noites do Crepúsculo de Cubatão, Kitschnett, Dr. Smith, as festas ValDemente e X-Demente. Palomino repassa os períodos de auge e decadência de cada lugar destacando seus personagens, características e modismos.
Ela lembra, por exemplo, que no Massivo ‘‘tudo era permitido’’: ‘‘Meninos ainda em dúvida quanto à própria sexualidade se permitem ficar com outros garotos – e na próxima noite de novo com garotas. Já as garotas podem beijar outras garotas sem precisar sair com rótulos ou sob os olhos da opinião de todo o clube. Aliás, ao contrário: o mais moderno é ser bissexual.’’
A cada clube abordado, ela inclui informações sobre seus donos, funcionários e frequentadores bem na linha ‘‘onde anda fulano?’’, além de comentar as principais festas ali realizadas. Um capítulo extenso é dedicado ao Hell’s, que através do DJ Mau Mau definiu o techno como a vertente musical de maior vigor na década.
A fama do Hell’s cresceu depois que foi tema de reportagem do Fantástico, na Globo, revelando para um público mais amplo o conceito de ‘‘after-hours’’, que inaugurou um novo horário de entretenimento para os notívagos. Seus habitués dormiam até cinco da manhã, tomavam banho, arrumavam-se, tomavam ecstasy e aí sim rumavam para o clube.
Depois de passar a limpo as casas noturnas, Palomino tece comentários sobre a popularização do techno e a música eletrônica produzida no país. Um capítulo é dedicado à cena gay, onde traça perfis de diversas drag-queens famosas e registra um glossário do vocabulário das bichas. Inclui também entrevistas com Madonna e com a drag norte-americana Ru Paul.
Mais adiante, na seção moda, ela aborda temas como o streetwear, o hype do tênis, o heroin chic, o Mercado Mundo Mix, os cybermanos (os clubbers da periferia) e a Galeria Ouro Fino (ponto de encontro fashion da Rua Augusta). No mesmo bloco, reproduz entrevistas com o estilista belga Walter van Beirendock e com a modelo Kate Moss. O volume se encerra com um texto sobre fetiche. Faltou algum item nesse painel dos anos 90?Chega ao público ‘‘Babado Forte – Moda, Música e Noite’’, de Erika Palomino, que traz um painel do comportamento jovem dos anos 90
Arquivo FolhaErika Palomino: três anos de pesquisaReproduçãoCláudia Guimarães/ReproduçãoKátia Miranda: modelito originalCláudia Guimarães/ReproduçãoJohnny Luxo: montado para a noite

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