Pode acontecer do leitor de romances se identificar com determinada personagem. Ou mesmo encaixar alguma personagem na pele de uma pessoa próxima. Pode acontecer de o leitor desejar que os romances sejam a vida recriada no papel. A vida real bordada pelo imaginário sem truques.
Pode acontecer, mas na verdade sem truques a ficção não consegue recriar a vida. Sem truques o leitor não possui a chance de identificação com personagens. O truque nada mais é do que o ofício do escritor.
Em seu novo livro, "Serena", o escritor britânico Ian McEwan coloca os truques sobre a mesa para fazer uma homenagem ao romance. Uma celebração ao ato da leitura e da escrita. Para isso cria uma história de espionagem completamente ímpar. Sua tese é de que há uma profunda relação entre o pensamento de um espião e o pensamento de um escritor de ficção.
Lançado pela editora Companhia das Letras, a obra narra a história de Serena, uma linda e talentosa jovem que adora romances baratos que trazem no final a frase "case comigo". Apesar de gostar do universo das letras, entra na universidade para fazer o curso de matemática.
Recém-formada, arruma um emprego público no MI5, órgão de inteligência secreta do governo britânico. Ocupando uma função burocrática de baixo escalão, certo dia recebe uma inesperada missão: convencer Tom, um jovem e promissor escritor, a aceitar uma bolsa remunerada para desenvolver sua carreira literária. O real objetivo do M15 é, em plena guerra fria, incentivar romancistas a criarem obras que defendam os valores capitalistas em contraponto aos valores comunismo. Tudo de maneira secreta, por baixo de todos os panos, com dinheiro público.
Além da guerra fria, o pano de fundo trabalhado por McEwan é a Inglaterra do início da década de 1970 atolada numa crise financeira, política e civil acentuada pelo terrorismo irlandês. E um painel de como alguns escritores trabalharam secretamente como propagadores de ideologias disfarçadas de ficção.
O drama tem início quando Serena e Tom se apaixonam. Serena não pode revelar seu segredo de espiã e vive atormentada com a situação. Tom, sem saber de nada, pula de cabeça na escrita de um grande romance.
Como leitora, Serena apresenta as histórias criadas por Tom por meio de sua própria ótica. Ou seja, oferece ao leitor as histórias por sua leitura, não pelo texto original criado pelo escritor. Uma ficção dentro de outra ficção sem carne ou osso. Um truque dentro de outro truque.
Nascido em 1948, Ian McEwan, um dos principais escritores da Inglaterra na atualidade, utiliza o universo da espionagem apenas como pretexto em "Serena". Seu real objetivo é realizar uma celebração do romance, da arte da ficção. O truque é revelado apenas nas últimas páginas, onde a metaficção, ou a metaliteratura, se apresenta de maneira emocionada.
Seu argumento é de que a literatura é uma geradora de coisas. A imaginação que ela gera é capaz de conduzir as pessoas à inteligência. Mas, quando o processo se inverte pelas garras do poder institucionalizado, é a inteligência que passa a interferir na imaginação. Então, o único resultado que essa manipulação pode assumir é o fracasso da literatura.
"Serena" é um romance sobre o processo de como o leitor se apaixona pelo escritor (realidade) através da escrita (ficção). E também é uma obra sobre o processo de como o escritor (realidade) se apaixona por uma personagem (ficção) que ele próprio imaginou. Um jogo onde, apesar de todos os truques, a mágica prevalece na alma das palavras.

Serviço:
"Serena"
Autor – Ian McEwan
Editora – Companhia das Letras
Tradução: Caetano W. Galindo
Páginas: 384
Quanto: R$ 39,90


Fragmento:

Não me impressionavam os escritores que se infiltravam nas suas páginas como parte do elenco, determinados a lembrar o coitado do leitor que todos os personagens e até eles mesmos era pura invenções e que havia uma diferença entre a ficção e a vida. Ou, pelo contrário, insistindo que a vida afinal era uma ficção. Só os escritores, eu achava, poderiam um dia chegar a correr o risco e confundir as duas coisas. Eu era uma empirista nata. Acreditava que os escritores eram pagos para fingir, e deveriam usar o mundo real onde coubesse, aquele que nós todos compartilhávamos, para dar plausibilidade ao que inventavam. Então, nada de palavrório chique sobre os limites da arte, nada de demonstrar deslealdade para com o leitor ao parecer cruzar e recruzar sob algum disfarce as fronteira do imaginário. Nos livros que eu gostava não havia lugar para agentes duplos.


(Fragmento de "Serena" de Ian McEwan)

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