O Festival de Veneza criou há alguns anos uma seção paralela batizada de ‘‘Sonhos e Visões’’, para abrigar exatamente isso, o fértil e dinâmico processo criativo de jovens cineastas. O problema é que nesta mesma rubrica às vezes mistura-se joio e trigo, e ao lado de experiências estimulantes podem ser encontrados títulos certamente selecionados para, digamos, aliviar pressões mais ou menos invisíveis - o cinema comercial americano batendo à porta (arrombando, diriam alguns) da união européia. ‘‘A Cela’’, que estréia hoje nos cinemas do Paraná , que indevidamente frequentou Veneza há dois meses, é um desses exemplares que se encaixam à perfeição no rótulo ‘‘arte de vitrinista’’.
Catherine Deane (Jennifer Lopez) é uma psicóloga que está experimentando um nova e radical terapia, um processo que possibilita penetrar na mente de pessoas em estado de inconsciência. Por seu turno, o engenhoso ‘‘serial killer’’ Carl Stargher ( Vincent D’Onofrio) continua liquidando mulheres utilizando também um mecanismo sofisticado: ele aprisiona as vítimas num pequena cela de vidro e as afoga. Quando o assassino entra em coma, um agente do FBI (Vince Vaughn) convence a Dra. Catherine de que o único meio de encontrar e salvar a mais recente vítima do psicopata é entrar na mente dele através da técnica experimental. Ela aceita, mas a cabeça do demente supera qualquer compêndio de anomalias - tão malévola, tão forte e de tal forma povoada por imagens e pensamentos monstruosos que ela pode não escapar com a sanidade intacta. Dentro do macabro mundo de Stargher, ela aprende o que é ser um predador, mesma quando se torna sua vítima virtual.
Coleção de imagens, movimentos e efeitos largamente utilizados no cinema publicitário, ‘‘A Cela’’ é também um extenso mostruário de citações, acima de tudo visuais, mas também cinematográficas e literárias. ‘‘O Silêncio dos Inocentes’’ é aqui refeito, mas com parapsicologia e doses de ficção científica para confundir o gênero. De tudo se copia; revistas de moda, filmes do expressionismo, capas de novelas ‘‘pulp ficction’’, filmes de Terence Fischer via Hammer, filmes Michal Powell, dezenas de pintores e ilustradores. Esta volúpia ‘‘citacionista’’ pega pesado e castra o filme: o excesso exaure o espectador, o suspense se atenua. O estreante diretor indiano Tarsem Singh, ex-clipeiro do grupo REM e de famosa marca americana de cerveja, não dá qualquer abertura para que seus atores ou a platéia possam respirar em meio ao jorro ininterrupto de imagens. Do mundo real para o inconsciente do assassino, cada plano é saturado de imagens, muitas vezes se assemelhando a uma espécie de brinquedinho particular.
Andre Breton, velho mestre do surrealismo, não escondia o desencanto nos últimos tempos de vida aos saber dos excessos do movimento que tinha criado. Dizia que tinha virado uma arte de vitrinista. Diante de ‘‘A Cela’’ estamos numa espécie de formidável museu kitsch dos vitrinistas, isto é, dos publicitários.

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