Serra do Roncador Será que os céticos resistem às vibrações do interior da Terra? A pergunta estava entre as indagações dos que participaram do ritual do grupo Filhos do Sol, na Gruta do Santuário, no município de Cocalinho (MT), no dia 21 de setembro. A partir das 19 horas, cerca de 300 pessoas, vestidas de branco e iluminadas apenas pela luz de velas, ocuparam silenciosamente a caverna de dimensões correspondentes a cerca de mil metros quadrados, enfeitada por estalactites grandiosas, a maior parte em forma de tulipas como num grande jardim suspenso.
Entrar à noite numa caverna é uma experiência fascinante. Um retorno ao mundo primitivo, com pessoas reunidas ao redor do fogo, agora em busca da proteção divina. No Mato Grosso, o local há pouco tempo ocupado apenas por animais, foi escolhido para a festa que marcou o Solstício da Primavera e a Abertura do Portal do Roncador, na banda tropical da Terra.
No mesmo dia, do outro lado do planeta, era celebrado um encontro parecido no Monte Fuji, também considerado um ponto altamente energético. As diferenças eram a língua, os costumes, a luz que brilhava no País do Sol Nascente, enquanto no Brasil Central a reunião aconteceu sob a lua cheia. Em comum, nos dois países, a crença de que aquele era um dia importante para a humanidade.
Segundo os místicos, de 2002 até 2013, a Terra será marcada pela intensificação das guerras, o aumento das dificuldades econômicas e das catástrofes. O alento está na crença de que colunas espirituais podem ser construídas entre o Brasil e o Japão, entre o Himalaia e os Andes, além de outros pontos citados como alicerces de estabilidade do planeta.
Os Filhos do Sol têm como líder a vestal Deusa. Vestal, de modo simplificado, significa a ''guardiã do fogo''. Na cultura inca, as vestais tinham uma função importante, participando ativamente dos cultos pagãos. A denominação Deusa já não tem qualquer relação com a divindade, refere-se ao nome de batismo da matogrossense Deuzimar Esteves. A vestal tupiniquim nasceu no Pantanal em 1947, e hoje, nas cerimônias místicas, é assistida pelo marido e companheiro de fé Armando Luvson, gaúcho de 76 anos, considerado o ''Guardião da Serra do Roncador''.

Na cerimônia, a vestal parece bem mais jovem

O culto dos Filhos do Sol pode ser comparado a uma missa longa e solene. Quem esperava shows pirotécnicos ou de energia cósmica, incorporações barulhentas ou qualquer tipo de manifestação física destinada ao ''ver para crer'' acabou frustrado. O guardião explicou as funções da ordem esotérica, baseadas em hierarquia rígida, anunciou a entrada da vestal que à luz de velas parecia bem mais jovem do que realmente é e entregou a cerimônia à condução da mulher que falou sobre a Abertura do Portal do Roncador, um acontecimento que ela esperou por 30 anos. ''Chegou a hora disse da humanidade conhecer o que está oculto''.
E discorreu sobre o portal, que tanto pode ser interpretado como uma abertura espiritual para contato com outras civilizações possivelmente das entranhas da Terra como um acesso ao nosso próprio interior, como se penetrássemos as janelas da alma. A simbologia registra sinais fortes no inconsciente coletivo. As roupas brancas, o fogo, as flores de pedra suspensas no teto criavam a cenografia do outro mundo. A vestal atua como mensageira do mestre espiritual Septnefille (o Sétimo Filho), entrando e saindo da terceira para a quarta dimensão, como quem pega um elevador para o andar de cima. Tudo sem exaltação de gestos ou de voz. O transe da Deusa é discreto.
Ao som de mantras palavras entoadas de um modo que faz vibrar o ambiente cantos e muitos discursos, os participantes da ordem foram identificados. Um staff de 19 pessoas, todos homens, sendo que 12 são chamados ''apóstolos''. As sacerdotisas, em número não determinado, também participam das cerimônias.
A explicação para realizar o ritual na caverna considerada sagrada foi dada pela vestal. Ela afirma que as estalactites contêm partículas minerais (dolomítico e magnésio) que aumentam o potencial eletromagnético do local, capaz de imantar os centros de energia do corpo. Estes minerais estariam nas pedras brancas e leitosas que lembram a estrutura dos ossos. Em outras palavras, pela constituição parecida dos ossos e das pedras, as pessoas sairiam da caverna magnetizadas e mais fortes para enfrentar o Terceiro Milênio. As explicações podem não corresponder aos fundamentos da química, mas são levadas a sério pelos integrantes da ordem que saem da gruta confiantes e felizes. Poder das pedras ou ilusões da mente? Não há resposta que satisfaça igualmente aos incrédulos e aos iniciados.

Uma ponte metafísica une o Brasil e o Japão

Durante a cerimônia, o toque oriental foi dado pelo monge Kazumi Watanabe, engenheiro florestal, de 40 anos, que veio especialmente de Tóquio para a Serra do Roncador. Sua função? Realizar dois rituais: um budista e um xintoísta. O xintoísmo é considerado a primeira religião do Japão, um culto de devoção à natureza que na Gruta do Santuário encontrou terreno propício. Emocionante presenciar o encontro de culturas naquele pedaço do sertão brasileiro, acompanhar o ritual japonês em que o monge utiliza espadas simbólicas para a purificação e a iluminação do local.
Especialmente tocante foi ouvir o monge Watanabe, em português precário, resgatar a história daquele ponto do Brasil onde, no rio das Mortes, os bandeirantes massacraram cerca de 30 mil índios, da tribo xavante. Para abrir a ''coluna espiritual'' entre o Brasil e o Japão, ele fez orações pela ascensão das almas dos índios e brancos sacrificados em nome do poder e da posse das riquezas do Roncador. Pausa de triste memória sobre a história dos sertões brasileiros.
De volta à cerimônia, perto das 2 da madrugada do dia 22 de setembro, a vestal anunciou a Abertura do Portal do Roncador. Na presença do monge budista e do místico mexicano Fernando BaÀol, um dos líderes do movimento gnóstico, dezenas de pessoas se colocaram nos quatro pontos cardeais. Sinos e tambores marcaram a abertura do portal sem que nenhuma pedra se movesse. Solenemente e de forma emocionada, os místicos acreditaram na união da humanidade a partir da construção de um túnel metafísico que junta diferentes povos e crenças, uma espécie de mixagem espiritual de caráter ecumênico. Na intimidade, apenas me lembrei da profecia de que a Terra passaria para um novo tempo ''quando o Oriente se encontrasse com o Ocidente''. No coração do Brasil, se o encontro aconteceu, neste dia e local, teve 300 pessoas e as pedras como testemunhas.

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