Hugo Carvana já teve sua fase de acreditar no cinema como agente transformador do mundo. Infelizmente, ou felizmente, ele caiu na real e hoje acha que o que transforma a cabeça das pessoas é o baseado ou o uísque. Não sendo a maconha legalizada - o Brasil não é a Holanda - e em plena Lei Seca, o mínimo a que ele se arrisca é ser considerado politicamente incorreto. Mas isso ele é, com orgulho. No seu novo longa, 'A Casa da Mãe Joana', que já está nas salas de todo o País, ele não aparece frente às câmeras.
Em seu currículo como ator e diretor existem filmes como ''Vai Trabalhar'', ''Vagabundo'' e ''Bar Esperança''. O mais recente a chegar nos cinemas havia sido ''Apolônio Brasil, Campeão da Alegria''. Nunca houve maior campeão da alegria do que o próprio Carvana. O mundo pode estar caindo, mas o personagem típico de Carvana mantém a classe e, entre um gole e outro de uísque, acha sempre pelo menos um paliativo, senão uma solução, para seus problemas.
''A Casa da Mãe Joana'' é um filme que ele carrega há muito tempo. ''Nos anos 60, trabalhávamos, Daniel Filho, Mièle e eu, como dubladores de filmes para TV. O trabalho deixava tempo para a praia, a paquera e a bebida. Morávamos num apartamento cedido pela família do Daniel, que era o nosso ninho de amor, a nossa casa da Mãe Joana. Era lá que fazíamos nossas farras de jovens.'' Na linguagem das ruas, a casa da Mãe Joana é tradicionalmente um lugar aonde vale tudo.
Os personagens de Carvana foram envelhecendo com ele. São agora interpretados por José Wilker, Paulo Betti e Antônio Pedro. O trio descobre que não tem um vintém e perderá o apartamento, se não saldar uma dívida colossal. Para fazer dinheiro rapidamente, Betti põe anúncio no jornal, oferecendo-se como garoto, perdão, coroa de aluguel. Antônio Pedro volta à labuta de escrever para jornal, mas fica atado à lembrança de seu grande amor, que vive no fundo das garrafas de uísque que consome (a exuberante Juliana Paes). José Wilker tem uma filha, que chega para despertar o desejo de Betti. Ele, um garanhão que tem uma extensa folha de serviços dedicados à arte da sedução, arranja como único emprego acompanhar um comendador entrevado que libera sua porção mulher e vira travesti (Agildo Ribeiro), correndo atrás de ''bofes'' na cadeira de rodas. Betti, de novo ele, tem uma mãe (Laura Cardoso), que fugiu da casa de repouso. E ainda existe Pedro Cardoso, que aplicou golpe num criminoso (Cláudio Marzo), fugindo com a mulher dele (Malu Mader).
Carvana já contracenou muitas vezes com - e até já foi pai de - Malu Mader em novelas na televisão. Os dois são figurinhas carimbadas do universo de Gilberto Braga, que identifica sempre em Carvana vestígios de um Rio de malandros míticos que resistem quanto podem à extinção de seu mundo. ''A Casa da Mãe Joana'' é sobre isso. Não é preciso nem procurar muito para achar defeitos no filme. Ele tem problemas de ritmo, o humor não é exatamente sutil. Mas o essencial da arte de Carvana está lá, e é esse seu amor pela arte da representação.
O elenco inclui veteranos e novas faces que vão se integrando à casa da Mãe Joana que é o cinema do autor. ''Necessito de grandes atores porque o cinema virou uma atividade cara e eu preciso filmar muito, e rapidamente, para não dar prejuízo.'' Aos jovens, ele transmite parte de sua experiência.
Ele identifica os problemas do cinema brasileiro no preço caro do ingresso, na concentração das salas em shoppings, aos quais o público mais humilde não tem acesso, mas Carvana também sabe que muitos de seus colegas querem mais é fazer cinema de autor e não estão nem aí para o público. Não é o caso dele. Carvana já trabalha no próximo filme, que vai se chamar ''Não Se Preocupe, Nada Vai Dar Certo'', uma célebre frase do dramaturgo e roteirista Armando Costa. Essa alegria de rir de si mesmo é contagiante em Carvana.

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