Assim como o pintor impressionista holandês Vincent Van Gogh (1853-1930), o ator cearense Gero Camilo, 42 anos, também pensou em seguir vida religiosa na adolescência. Ao se deparar quando tinha 16 anos com os escritos do pintor ao irmão Theo, percebeu de forma arrebatadora que além de ser um artista admirável, Van Gogh também era um grande pensador. "Foi algo que me marcou para a toda a vida e a partir daquele momento passei a admirá-lo ainda mais, reconhecendo nele um pensador profundo, com textos de uma grande riqueza literária, poética e filosófica, um manifesto sobre a vida de um artista ", conta Gero Camilo, por telefone, que apresenta hoje e amanhã o espetáculo solo "A Casa Amarela", às 20h30, no Teatro Marista, dentro da programação do Filo 2013.
E entre ser padre ou artista, no caso de Gero, e pastor protestante ou pintor, em se tratando de Van Gogh, ambos optaram pela carreira artística, com todas as alegrias e dissabores que ela pode ter. "Me identifiquei muito com as questões que ele sempre defendeu, e havia da sua parte um apreço pelos mais pobres, um olhar pelos frágeis, e isso me emocionava. Não aceito essa definição psiquiátrica de que ele seria louco e simplesmente não deu conta de lidar com a vida. Ele é muito mais complexo que isso e tem muito a nos dizer e ensinar. Seus apontamentos e angústias são mais próximos e contemporâneos do que pensamos, ainda mais quando estamos falando das pessoas que querem viver da arte. Não é uma tarefa fácil e qualquer um de nós está sujeito a intensidades psicológicas e emocionais", avalia o ator.
Conhecido do grande público pelos seus trabalhos no cinema - como nos filmes "Bicho de Sete Cabeças" e "Carandiru" - e na televisão – a exemplo da minissérie "Hoje é Dia de Maria", e mais recentemente no remake da novela "Gabriela", em que interpretou a personagem Miss Pirangi -, Gero Camilo decidiu no final de 2010 reunir todas as suas economias e passar um mês em Amsterdã (Holanda) para mergulhar na história de Van Gogh e escrever a peça. "Não tinha dinheiro para produzi-la, mas me determinei a fazê-la, era algo que simplesmente precisava fazer. Até as dificuldades de comunicação, o isolamento e a falta de dinheiro acabaram por colaborar nesse processo intenso de criação", cita o ator, lembrando que chegou a visitar uma das casas em que o pintor morou, o túmulo da sua família e até a igreja que seu pai frequentava.
Para aqueles que imaginam que o tom da peça seja predominantemente pesado, Gero avisa: "ninguém vive a tragédia, a dor durante 24 horas. Ele também era iluminado, tinha seus momentos de leveza, de cores e luz e é esse Van Gogh que pretendo apresentar às pessoas. Procurei fugir das biografias muito romanceadas ou psicologizadas e optei por tratá-lo de uma forma natural, humanizada, e de alguém que foi à frente de seu tempo e ainda vai seguir adiante, além de nós", conclui o artista.

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