A casa, a família, a vida de Alice
O que pode haver em comum entre um mega-espetáculo feericamente visual como ''Speed Racer'', exemplar do poder e da glória hollywoodiana, e um filme pequeno, quase minimalista como ''A Casa de Alice'', realizado no Brasil quando muito com um centésimo do orçamento do outro ? Levou o ingresso de prêmio (para ver ''Alice'', obviamente...) quem respondeu ''a família''.
Ambos tratam desta célula institucional que move o planeta e que se move para cima ou para baixo, para frente ou para trás, para a felicidade ou para a desgraça, mas que está sempre em movimento, sempre em dinâmica em busca de ajustes para se adequar, da melhor maneira, à mutante contemporaneidade.
''A Casa de Alice'', primeiro filme ficcional do documentarista Chico Teixeira, chega à Londrina a partir de hoje (veja a programação de cinema na pagina 2) pela via periférica, abrigado pela proposta da sala alternativa que é dar visibilidade a um certo perfil de produção brasileira que não se enquadra nas ambições comerciais dos complexos exibidores dos multiplex.
Alice, interpretada por Carla Ribas, é a manicure quarentona que mora na periferia de São Paulo. Vive em banho-maria. Mantém um casamento cinza com um taxista que venera e usufrui de lolitas pré-púberes. O casal tem três filhos, entre a adolescência e a maturidade. A mãe de Alice, dona Jacira, é a idosa dona do apartamento onde moram todos, assim meio amontoados. Alice é o alicerce estrutural da casa: cozinha, lava, passa a roupa de cama das noites mal dormidas de todos. Solitária, finge que não sabe dos casos do marido para fingir que também não sabe de suas próprias aventuras. Aventuras que a mantém viva. Ou pelo menos ela pensa assim.
Retrato sem retoques da classe media baixa - radio de pilha, tevê aberta, pão com margarina -, ''A Casa de Alice'' reproduz, de forma realista (naturalista, na verdade), sincera e clara, um estrato social da megalópole, no qual é possível descobrir mundos paralelos povoados por segredos e crises. Mesmo tratando da rotina e das preocupações de cada personagem, o filme está mesmo interessado é no drama de Alice. O diretor Chico Teixeira não se interessa em construir um melodrama familiar, em que pesem todos os elementos propícios. Aqui, o tom de serenidade e melancolia está alguns registros abaixo, por exemplo, daqueles de ''Beleza Americana''.
Há uma determinada posição assumida: a visão de mundo é a de que o destino se molda por circunstâncias que escapam às nossas escolhas, e que a passividade, a acomodação, a contemplação pura e simples acentuam ainda mais o imobilismo. Um filme a ver com olhos bem abertos. (C.E.L.J)





