Rio, 21 (AE) - Os documentos relativos ao Descobrimento do Brasil estavam espalhados em museus e arquivos europeus, a maioria em Portugal. Estavam. Porque agora foram reunidos no livro "A Carta de Descobrimento do Brasil", que a Xerox lançou no fim do ano passado para distribuir em escolas e bibliotecas públicas. É um projeto ambicioso porque, além de reproduzir mapas, desenhos, cartas e relatórios da viagem de Pedro álvares Cabral, traz ensaios de pesquisadores brasileiros e portugueses informando o contexto em que o Descobrimento ocorreu e suas consequências.
O livro começou a ser pesquisado em abril pelo antropólogo e pesquisador da Universidade de São Paulo (USP) Luiz Donisete Grupioni, especialista em história do Brasil colonial. O ponto de partida foi a carta de Pero Vaz de Caminha, que foi reproduzida em fac-símile e teve adaptação para o português moderno, assim como a carta de mestre João Ferraz, físico real que acompanhou a frota de Cabral e descreveu o céu brasileiro pela primeira vez. "A carta de Pero Vaz é a verdadeira certidão de nascimento do Brasil e, com a de Mestre João Ferraz, foi a primeira idéia que os europeus tiveram do Brasil", comenta Grupioni.
"Embora a de Ferraz não tenha ficado tão conhecida quanto a de Pero Vaz, as duas complementam-se, porque o escrivão oficial descreve os aspectos etnográficos do novo país, enquanto Ferraz, que era um cientista, busca o lado físico e geográfico". Grupioni garante que estas não foram as únicas cartas sobre o Brasil. "Há registros de que tripulantes, padres e outros integrantes da comitiva escreveram, mas esses documentos se perderam na época, durante o terremoto que atingiu Lisboa no século 18", diz o pesquisador. "O que restou está na Torre do Tombo, em Portugal, na Itália, França e nos Estados Unidos e está reproduzido no livro".
A pesquisa para a publicação levou Grupioni a arquivos e museus desses países, onde ele encontrou originais preciosos, como o "Planisfério", de Alberto Cantino, datado de 1502 e considerado o primeiro mapa-múndi onde o Brasil aparece. Do Museu Nacional Grão Vasco foi reproduzido o primeiro quadro mostrando índios brasileiros, "Adoração dos Reis Magos", um óleo sobre madeira dos primeiros anos do século 16, atribuído à oficina de Vasco Fernandes, o pintor oficial da corte do infante dom Manuel. Também dessa época há a reprodução do quadro "Inferno", de autor desconhecido, em que o demônio é um índio coxo, cercado de pássados brasileiros. Colaborações - O livro entusiasmou tanto o diretor da Torre do Tombo, Bernardo Vasconcellos, descendente direto de Pedro álvares Cabral, que ele se tornou autor de um dos ensaios da obra, no qual comenta a importância da carta de Pero Vaz de Caminha para o arquivo que dirige e para a história portuguesa. Dois professores de literatura, Lúcia Bettencourt e Paulo Roberto Pereira, escreveram sobre o estilo das duas cartas, enquanto o historiador Fernando Novaes falou das consequências da descoberta no Renascimento europeu. Até as questões náuticas da época são discutidas no livro, num artigo do diretor do Patrimônio Histórico Cultural da Marinha brasileira, o contra-almirante Max Justo Guedes.
"A Carta do Descobrimento do Brasil" tem 160 páginas, mais de 200 reproduções e uma dimensão (26cm x 37 cm) proporcional às medidas das cartas de Pero Vaz de Caminha e de Mestre João Ferraz. "A primeira tem cerca de 20 páginas e a segunda apenas duas; ambas serão integralmente reproduzidas e versadas para o português contemporâneo", adianta Grupioni.
Apesar do custo de US$ 120 mil e da distribuição gratuita, a Xerox não usou as leis de incentivo fiscal para produzir "A Carta de Descobrimento do Brasil". Segundo o gerente de marketing, Júlio Damasceno, o livro servirá também para apresentar ao Brasil a nova tecnologia de impressão digital criada pela empresa.

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