A carne rasgada pelo deserto
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de março de 2002
Marcos Losnak Especial para a Folha 
Nos últimos meses o Afeganistão esteve em todos os jornais. A invasão do país pelo exército dos Estados Unidos colocou-o em evidência. Informações entre verdades e mentiras que os leitores desconheciam sobre os afegãos foram reveladas.
A literatura ficou fora dessas informações. Se antes da invasão praticamente nada se sabia sobre a literatura afegã, depois da ocupação a situação continuou a mesma. Mas como exceções existem, no meio desse tumulto o nome de um jovem escritor afegão surgiu discretamente em alguns lugares. Com um único livro publicado, falava justamente de um tema oportuno, a guerra.
Seu nome é Atiq Rahimi. Nasceu em Cabul em 1962. Trabalhando como jornalista, precisou deixou o país durante a guerra civil ocorrida no início dos anos 80. Instalou-se no Paquistão e logo em seguida na França como refugiado político. Nunca mais pisou no Afeganistão, mas seu livro Terra e Cinzas é um forte retrato de seu país.
Terra e Cinzas está sendo lançado no Brasil pela Editora Estação Liberdade. Trata-se de uma novela com ares de parábola sobre as marcas da guerra. Não as marcas deixadas nos corpos dilacerados, mas as marcas mentais e emocionais que enlouquecem as pessoas. Como se a carne fosse rasgada pela desolação do deserto.
O livro narra a história de um ancião numa dolorosa jornada: avisar o filho, que trabalha numa distante mina de carvão, sobre a morte de toda a família durante um bombardeio aéreo. Mãe, esposa e irmãos, todos mortos. Durante a jornada pelo deserto, carrega o único sobrevivente, o neto. Um garoto que ficou surdo com as explosões e não consegue entender o motivo do silêncio que tomou conta do mundo.
A forma narrativa utilizada por Atiq Rahimi faz como se o ancião, o narrador, contasse a história para si mesmo na tentativa de acreditar na realidade dos fatos. Ao mesmo tempo, se encarrega de criar outras possibilidades para a realidade, dando vazão ao desejo de alterar os acontecimento e levá-los longe da dor. A aridez do caminho percorrido pelo velho faz com ele delire e reze para que sua alucinação substitua as afiadas unhas da realidade.
Atiq Rahimi escreveu Terra e Cinzas em sua língua natal, o dari, um dialeto persa utilizado no noroeste do Afeganistão e, posteriormente converteu o texto para o francês. Mesmo ambientando a novela no contexto afegão, não realiza uma abordagem eminentemente política. Constrói uma parábola pacifista contra todos os tipos de guerras e seus efeitos sutis: A dor é assim, ela derrete ou escorre pelos olhos, ou ela se transforma em bomba dentro do peito, uma bomba que explode num belo dia e te faz explodir também.
Serviço:
Terra e Cinzas, de Atiq Rahimi, Editora Estação Liberdade, tradução de Flávia Nascimento, 80 páginas, R$ 18,00.


