O editor Sérgio de Souza fala da revista ‘‘Caros Amigos’’, publicação que se firma como a cara nova da imprensa brasileira
O editor Sérgio de Souza na redação de ‘‘Caros Amigos’’ em São Paulo:
Jota
Especial para a Folha2
Quando ‘‘Caros Amigos’’ surgiu em abril de 1997 provocou reações fortes. A revista se destacava a começar pelo formato visual. Além de ser bem maior - 27cm x 33cm - do que as outras publicações brasileiras, sua capa em preto e branco sobressaía nas bancas com revistas todas coloridas. Além dessas diferenças, o ‘‘revistão’’ trazia também um conteúdo editorial que há muito tempo não se via. Seu estilo criativo e diferente fez os 50 mil exemplares do primeiro número se esgotarem rapidamente.
‘‘Caros Amigos’’ já caminha para seu terceiro ano. Sua receita editorial, com reportagens de impacto - na edição desse mês o destaque é a violência policial no Paraná -, entrevistas e textos em que os colaboradores expressam seus pontos de vista com uma franqueza que há muito não se via na imprensa, garantiu para a publicação um tipo de leitor especial, crítico e participante. ‘‘Pedem que a gente continue trilhando o mesmo caminho editorial, exercendo a mesma independência e pluralismo’’, diz o editor de ‘‘Caros Amigos’’, o jornalista Sérgio de Souza, paulista de 65 anos, 41 anos de profissão. Essa autonomia editorial tornou a revista a mais ousada publicação que apareceu nas bancas desde o último suspiro da chamada ‘‘imprensa nanica’’ no início da década de 80.
O editor Sérgio de Souza tem um vasto currículo profissional. Foi um dos jornalistas mais atuantes da imprensa alternativa na década de 70, depois de ter sido editor da revista Realidade em seus áureos tempos, nos anos 60. Ajudou a fundar os jornais ‘‘Bondinho’’, ‘‘Jornalivro’’, ‘‘Grilo’’, ‘‘Ex-’’, ‘‘Monte Alegre’’ (tablóide da PUC de São Paulo) e ‘‘Domingão’’, semanário polêmico de Ribeirão Preto. Trabalhou também nas revistas ‘‘Quatro Rodas’’, ‘‘Globo Rural’’, ‘‘TênisEsporte’’, ‘‘Placar’’ e no semanário ‘‘Aqui São Paulo’’; em televisão trabalhou no Globo Repórter e no programa ‘‘Noventa Minutos’’, da TV Bandeirantes; foi também chefe da sucursal de São Paulo do programa ‘‘Fantástico’’.
‘‘Sérjão’’, como é chamado pelos amigos, fala de ‘‘Caros Amigos’’ - que tem sua redação no bairro paulistano de Vila Madalena - como se estivesse comentando sobre o dia-a-dia de uma grande família. E a fraternidade, também manifestada no título da revista, é real. É uma reunião de gente - jornalistas, fotógrafos, escritores e artistas - que converge para a expressão livre e sincera de suas visões de mundo. Essa proposta acabou reunindo textos de altíssima qualidade, de jornalistas dispersos em variadas publicações ou mesmo que andavam fora da imprensa. Artistas e escritores também se agregaram às páginas livres de ‘‘Caros Amigos’’. Nelas, por exemplo, o dramaturgo Plínio Marcos pode, finalmente, escrever com toda a liberdade.
Entre as boas surpresas que chegam à redação de ‘‘Caros Amigos’’ - que já está na Internet, no site www.carosamigos.com.br -, o jornalista se anima principalmente com a descoberta de um público jovem ‘‘muitíssimo interessado nos problemas brasileiros’’. Em entrevista à ‘‘Folha2’’, ele alerta para a ameaça do modelo de globalização imposta pelos países mais fortes -’’ ninguém consegue formular uma proposta de vida ou um simples pensamento sem recorrer a essa divindade chamada mercado’’ - e fala da cultura brasileira, dos rumos da imprensa e da aventura de fazer uma publicação criativa e independente.

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