Quando o cantor e compositor Itamar Assumpção morreu, em 2003, vítima de câncer, aos 53 anos, deixou órfãos, seguidores, um legado musical e vasto material inédito. Gravadas pelo próprio músico em estúdios diferentes, de 1998 a 2003, com as bases de voz e violão, essas canções que nunca vieram a público foram compiladas, uma a uma, e são lançadas agora da maneira como o dono da obra idealizava: dentro de sua ''Caixa Preta''.
Lançado pelo Selo Sesc, o projeto reúne não apenas os dois volumes-sequências do álbum ''Pretobrás'', de 1998, um dos mais importantes de sua discografia. E convenhamos: se carregasse ''somente'' os inéditos ''Pretobrás II - Maldito Vírgula'' e ''Pretobrás III - Devia Ser Proibido'', já seria de grande valia.
Mas o próprio Itamar tinha planos maiores para sua caixa de pandora às avessas - que foram colocados em prática, postumamente, por sua família e amigos. Ele queria usá-la para o relançamento de seus dez discos. Como não tinha as originais dos antigos registros, estava disposto a regravar todos eles.
Nunca chegou a fazê-lo, mas a salvadora remasterização possibilitou esse resgate, com o devido tratamento sonoro. Além disso, há alguns mimos extras, como a inclusão de uma versão da música ''Não Vou Ficar'', de Tim Maia, no álbum ''Às Próprias Custas S/A'', que havia ficado de fora do LP original.
Para a concretização da ''Caixa Preta'', foi impelida uma verdadeira força-tarefa. O Sesc São Paulo entrou como realizador da iniciativa, ao lado da família do músico. A curadoria e coprodução ficaram a cargo das mulheres da vida do compositor: a esposa, Elizena, e as filhas, Anelis e Serena Assumpção. Os amigos músicos também deram sua contribuição. Afinal, após anos de convivência, eles sabiam exatamente o que o mestre Itamar Assumpção gostaria para seus discos inéditos.
O Nego Dito, o vanguardista paulistano, o bendito da MPB, todos vivendo num mesmo Itamar Assumpção, estão bem representados. Beto Villares assina a produção de ''Pretobrás II'' e Paulo Lepetit, baixista da banda Isca de Polícia, que acompanhava Itamar, a produção de ''Pretobrás III''. Aliás, a escolha de dois produtores concedeu um acabamento musical diferente para cada volume. O disco que ficou na mão da turma do Isca de Polícia acabou reverberando fielmente a sonoridade do compositor. Já nas mãos de Villares, o outro álbum soou mais livre, claro, sem perder de foco o estilo do autor da obra.
Ensaios e futebol
Segundo a filha Serena, o pai já pensava na trilogia do ''Pretobrás'' após finalizar o primeiro volume, em 1998. Na mesma época, soube que estava com câncer. ''Ele ficou trabalhando para ter esses dois discos na caixa. Algumas dessas músicas foram registradas em momentos em que ele estava mais fraco. Outras, em que estava mais disposto'', diz ela.
''Foi como gravar com ele. A banda continua tocando, não existe traços de nostalgia'', afirma Luiz Chagas, integrante do Isca e que levou sua guitarra para as gravações do terceiro volume do ''Pretobrás''. Chagas conta que, nos últimos anos, Itamar estava compondo canções simples harmonicamente. ''Ele tinha tudo o que queria na cabeça, as linhas de baixo, de guitarra. Mas com o tempo, foi confiando mais no nosso trabalho e passou a ficar só na composição. Ele dava a música e a gente fazia os arranjos'', lembra.
A rigidez de Itamar Assumpção e a precisão com que queria ver executadas suas ideias foram abrindo guarda para sugestões vindas de seus músicos. ''Itamar gravava muito comigo e encontramos músicas dele em melhores condições. Isso facilitou construir os arranjos e aplicar a linguagem que aprendi com ele'', diz Lepetit.
Ele e Itamar tinham uma convivência muito próxima. Nos anos 1980, existia uma efervescência de bandas nacionais, principalmente as de rock. ''A gente ensaiava todos os dias. Embora não tivéssemos um salário, era um emprego'', declara o baixista, com humor. ''Depois dos ensaios, a gente ia jogar futebol. Acabamos nos tornando grandes amigos.''
Serviço
- Caixa Preta
Artista - Itamar Assumpção
Gravadora - Selo Sesc
Quanto - R$ 150

RELANÇAMENTOS
- ''Beleléu, Leléu, Eu'' (1980)
- ''Às Próprias Custas S/A'' (1982)
- ''Sampa Midnight - Isso Não Vai Ficar Assim'' (1983)
- ''Intercontinental! Quem Diria! Era Só o Que Faltava!!'' (1988)
- ''Bicho de Sete Cabeças Vol. I , II e III'' (1993)
- ''Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - Pra Sempre Agora'' (1996)
- ''Pretobrás I - Por Que Que Eu Não Pensei Nisso Antes?'' (1998)
- ''Naná Vasconcelos e Itamar Assumpção - Isso Vai Dar Repercussão'' (2004)

INÉDITOS
- ‘‘Pretobrás II - Maldito Vírgula’’ (2010)
- ‘‘Pretobrás III - Devia Ser Proibido’’ (2010)

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