Depois do sereno, linear, transparente e humanista ‘‘Uma História Simples’’, apresentado em competição em Cannes há dois anos, David Lynch voltou semana passada à Riviera Francesa, de novo em busca da Palma de Ouro que ele já tinha levado em 1990 com ‘‘Coração Selvagem’’. E quem voltou foi o Lynch de ‘‘Veludo Azul’’, ‘‘Twin Peaks’’ e ‘‘A Estrada Perdida’’, o homem dos mistérios ‘‘dark’’ que desafiam explicações instantâneas e convidam à especulações metafísicas. Em ‘‘Mulholland Drive’’, o diretor que Stanley Kubrick chamava de ‘‘o cineasta do inconsciente’’ constrói mais um enigma com muitas pistas e nenhuma abertura, uma intriga de suspense que permite qualquer reação do espectador, menos a indiferença.
Em Los Angeles, depois de sofrer um acidente numa limusine em companhia de dois homens de quem nada se sabe, uma bela morena fatal, Rita (Laura Elena Harring), perde a memória. Betty (Naomi Watts), uma bela loura ingênua candidata a atriz em Hollywood, tenta ajudar Rita a sair da amnésia. As duas querem saber de onde vem o dinheiro e uma enigmática caixa azul, encontrados na bolsa de Rita. A partir deste ponto, qualquer tentativa de simplificar o argumento é inútil. O que pode ser dito é que David Lynch revisita o mito hollywoodiano através dessas duas mulheres e seus destinos entrecortados por imagens fantásticas e fantasmagóricas.
E apesar de não abrir mão de um largo e constante sorriso, e de uma amabilidade a toda prova enquanto conversa com a Folha no Hotel Carlton, o diretor não parece mesmo disposto a abrir sua caixa de Pandora recheada de sonhos, isto é, de pesadelos. Nenhuma explicação teórica, nenhuma interpretação. O ‘‘mistério’’ Lynch permanece intocado.
Com ‘‘Uma História Simples’’, em 99, o senhor deu a impressão de uma guinada em sua carreira, numa direção bem diferente...
Foi de fato uma mudança, e agora faço um novo gênero de cinema (risos). Eu me apaixonei pelo roteiro de ‘‘Uma História Simples’’ e pelas idéias que ele continha. O importante é ser sempre fiel às idéias, de seguí-las até o fim.
Originalmente ‘‘Mulholland Drive’’ era o projeto para uma série de televisão. O que aconteceu ?
Há alguns anos propus um telefime-piloto a uma companhia, que recusou com tamanha veemência e com tal repulsa que acabei abandonando a tarefa. Mas me parece que todo projeto, mais cedo ou mais tarde, acaba tomando a sua forma ideal. No caso de ‘‘Mulholland Drive’’, ele não deveria ser um espetáculo televisivo mas sim um longa-metragem para cinema, claro que depois de muitas idas e vindas. Uma noite, finalmente, idéias excitantes surgiram, me indicando o caminho a seguir.
O que representa para o senhor esta avenida, a Mulholland Drive?
Na verdade ela praticamente cerca Los Angeles. Ela é muito longa, parte do leste, serpenteia pelas colinas de Santa Monica e continua sua rota até Malibu. Eu mesmo nunca fui até o fim. É uma estrada cheia de mistérios, de histórias estranhas, de crimes e romances. Uma parte é residencial, a outra permanece selvagem.
Através dessas duas heroínas, Rita e Betty, pode-se dizer que o senhor presta uma homenagem à idade de ouro do cinema holywoodiano através de uma sátira a Hollywood de hoje?
Todas as interpretações são possíveis. Você é livre para pensar o que quiser. Quanto maior a abstração, mais vastas as interpretações. É a mais bela das coisas, por isso não conte comigo para fornecer as chaves...
O que o senhor pensa sobre Hollywood?
É uma cidade tão rica e em constante transformação, impossível defini-la em poucas palavras! (com evidente cinismo). Acho que ‘‘Crepúsculo dos Deuses’’ é o filme que melhor mostra certos aspectos de Hollywood.
O senhor sente nostalgia em relação à velha Hollywood?
Ah, claro que sim. Eu ainda não era nascido, mas posso sentir no ar de Los Angeles tudo o que se passou por ali. Dirigir à noite, sentir a brisa que remete àquela época de ouro... É fantástico. Adoro todas as histórias que me contam sobre o sistema dos estúdios.
E a misteriosa caixinha azul de ‘‘Mulholland Drive’’, algum dia o senhor pretende revelar o que existe lá?
O mais tarde possível...
Decididamente o senhor adora cultivar um mistério em seus filmes.
Adoro o mistério, ele está em toda parte. E nós somos detetives, sempre procurando pistas e tentando chegar às conclusões.

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