'A CABRA VADIA' - Crônicas de um rebelde sexagenário
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 08 de janeiro de 2008
Ubiratan Brasil<br>Agência Estado 
Em 1968, o Brasil e o mundo fervilhavam, marcados pela radicalização de posições políticas à esquerda e à direita. Enquanto artistas e intelectuais acreditavam ser necessário se posicionar claramente, o escritor, jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues iniciava um momento muito difícil de sua vida - ele se aproximava dos 60 anos, logo terminaria o segundo casamento, sofreria com duas úlceras perfuradas e um enfarte, além de se angustiar com o filho Nelsinho, obrigado a entrar na clandestinidade e ainda ser preso. Acima de tudo, Nelson, que há anos militava na imprensa, parecia ultrapassado pelas novas técnicas jornalísticas, que pregavam textos isentos.
Em resposta a tudo isso, e especialmente para reforçar sua profissão de fé reacionária, ao mesmo tempo em que perturbava a parcela da esquerda mais explosiva, Nelson iniciou, primeiro no jornal ''Correio da Manhã'', depois no ''Globo'', a publicação de uma série de crônicas que, reunidas em livro, originaram ''A Cabra Vadia''.
''Ao lado de 'O Reacionário', são as crônicas mais pessoais do autor, e versam sobre acontecimentos e personagens que, como Rodrigues, compartilharam a época do confronto, político e ideológico, no final dos anos 60'', observa o jornalista Wilson Figueiredo no prefácio da atual edição. De fato, as 84 crônicas escritas entre janeiro e outubro de 1968 - mais ou menos o mesmo período coberto por ''O Óbvio Ululante'', outra seleção de textos notadamente pessoais - revelam um espectador atento que investia contra mitos e modismos da época.
O título, aliás, vem de um quadro que Nelson Rodrigues apresentava no programa ''Noite de Gala'', da TV Globo. Ali, ele comandava entrevistas imaginárias em que conseguia de importantes personagens da vida brasileira depoimentos que eles só dariam ''num terreno baldio, às luz de archotes, e na presença apenas de uma cabra vadia''. E por que o animal? ''A cabra não trai'', justificava.
O direito de reinventar a realidade era defendido por Nelson Rodrigues como uma batalha pessoal. Filho de uma época em que o jornalismo retratava o cotidiano segundo suas próprias leis, indiferente à veracidade, ele descobriu, a partir dos anos 1950, com a adoção do respeito à realidade nas redações, que deveria defender uma causa quixotesca: a volta do ponto de exclamação nas manchetes, a reintrodução das reticências maliciosas e insinuantes, além dos pontos de interrogação para sacudir o leitor.
''Não era apenas o reacionário, mas o jornalista do passado, ressentido com o futuro'', comenta Figueiredo na introdução do livro. Segundo ele, o realismo de Nelson, com porcentagem razoável de ficção, reforçava-se com retalhos de fatos verdadeiros, costurados com paixões humanas.
Foi graças à seu imenso talento que Nelson Rodrigues se salvou de naufragar no limbo em meio a outros autores que tentaram impor um estilo próprio. As confissões de ''A Cabra Vadia'' são como uma filosofia de vida. Nesses textos, o escritor colocou as esquerdas na defensiva, ridicularizando os ''padres de passeata'' e as ''grã-finas amantes espirituais de Guevara''. Com isso, sofreu, em troca, ferrenho patrulhamento ideológico.
''Enquanto os jovens tomavam as ruas gritando 'Muerte!' e decapitando marias antonietas imaginárias, Nelson a tudo assistia dos seus pontos de observação: as sacadas das avenidas, os bares dos intelectuais, os saraus dos grã-finos. Depois, na redação, comentava o que vira, em crônicas de implacável lucidez'', observou Ruy Castro na edição de ''A Cabra Vadia'' lançada pela Companhia das Letras em 1995.
Esta, como a atual, editada agora pela Agir, traz todos os textos ordenados em ordem cronológica, com cada um recebendo a identificação da data em que foi publicado no final da crônica. Com isso, corrigem-se as imperfeições da primeira edição do livro, datada de 1970.


