A Bruxa de Blair não é mais aquela
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de fevereiro de 2001
De Londrina Especial para a Folha2 
No início do ano passado, The Blair Wich Project, ou simplesmente A Bruxa de Blair, como ficou conhecido no Brasil, era um documentário apócrifo realizado sobre supostos materiais registrados em vídeo por alguns estudantes de cinema que teriam sumido misteriosamente num bosque em algum lugar de Maryland. O filme foi um fenômeno comercial sem precedentes, um produto de marketing internauta que custou US$ 30 mil e rendeu mais de US$ 200 milhões. Quanto aos méritos artísticos, as opiniões se dividiram, mas acabou prevalecendo a singela genialidade da dupla de realizadores David Myrick e Eduardo Sanchez. Com habilidade e astúcia, eles contaram uma história de horror onde nada se via e nada se provava; tudo se intuía e tudo se sugeria.
A inevitável sequela que no tempo normal de Hollywood demoraria pelo menos uns quatro anos não se fez esperar. Com um orçamento 500 vezes maior (o custo agora subiu para US$ 15 milhões de dólares) mas com um nível de surpresa e criatividade inversamente proporcional, chega agora A Bruxa de Blair 2 - O Livro das Sombras . Myrick & Sanchez, os criativos e vitoriosos da estréia, foram ainda mais espertos do que da primeira vez. Abriram mão do controle criativo (que reassumiram na terceira parte, já em fase de pré-produção) e ficaram na retaguarda como produtores executivos. A direção ficou então com o documentarista Joe Berlinger, que acabou entregando como produto finalizado um previsível e convencional de suspense e terror endereçada à platéia consumidora do momento os adolescentes.
No mesmo lugar onde tinham sumido os personagens do Blair 1aparece agora um grupo de cinco jovens dispostos a seguir as pistas e documentar a experiência com todo tipo de câmeras. Quem são? O líder, Jeff, perito em novas tecnologias e dominado por problemas psíquicos; uma sedutora aprendiz de bruxa, Érica; o cético e pragmático Stephen e sua noiva grávida, Tristen, empenhados em escrever uma tese acadêmica sobre o caso; e Kim, bela espécie de revival do dark gótico dos anos 80. Mas a fórmula que deu bons resultados no primeiro filme parecia inteiramente esgotada, e as alternativas aqui foram trabalhar a lenda da lenda, a exploração sócio-econômica do local onde os fatos teriam ocorrido e em cima da paródia. Berlinger opta pelas três, e as liquida de um só golpe, rapidamente, deixando que a artificialidade tome conta.
Não há dúvida que A Bruxa de Blair 2 não é pior que a maioria de filmes recentes ligados ao lucrativo sub-gênero do terror juvenil. Tem razoável dose de suspense, empreende algumas reviravoltas com certo engenho e tenta com apreciável habilidade subverter os tradicionais tempos narrativos. Mas afinal fica a impressão incômoda de produção feita às pressas, sem se importar com ambições artísticas e de olho apenas nas bilheterias. Uma pena, porque a idéia original continua sendo intrigante. (C.E.L.J.)


