LONGA-METRAGEM
A Bruxa de Blábláblábláblair



Paulo Polzonoff Jr


Hitchcock e Borges, juntos e em sincronia, rolam na tumba a cada exibição de ‘‘A Bruxa de Blair’’ (The Blair Witch Project, 1999). O primeiro por ver um gênero do qual foi mestre tão difamado; o segundo por escutar adolescentes afiançando o filme à porta do cinema com sua famosa frase ‘‘yo no creo em brujas, pero que lás hay, lás hay’’.
O filme fala por si. Logo no começo da expedição dos três jovens que se embrenham na Floresta de Black Hills para documentar a lenda da Bruxa de Blair, um pescador, num tom rústico porém sóbrio, diz: ‘‘Jovens idiotas nunca aprendem’’. Eis a única fala digna de credibilidade na hora e meia de projeção. Ou seja, por mais inverossímil que seja a história, sempre haverá alguém para fazer dela um fênomeno de bilheteria galgado num mistério que não existe, desde que o público alvo seja adolescentes embevecidos com as campanhas de marketing que a vendem como sendo a gravação original de um tragédia.
‘‘A Bruxa de Blair’’ não passa de um mau produto muito bem vendido. Primeiro, inventaram a história de que o filme custara a ninharia de US$ 35 mil, depois passou-se à especulação de que o desaparecimento de Heather, Joshua e Michael seria verdadeira, então a estratégia tomou outro rumo, afirmando-se que os atores sofreram realmente o terror apresentado no filme.
Você acredita? Nem eu.
O filme não se sustenta nem como thriller de terror, nem como pretenso documentário. A direção é primária e o movimento incessante da câmera só consegue causar uma sensação no espectador: náusea. Não há a mínima sombra de medo.
O enredo é uma reinvenção da história de ‘‘João e Maria’’. Aqueles mesmos, que se perdem na floresta, encontram uma casa feita de doces e são aprisionados por uma bruxa má de verruga no nariz. Haether, Joshua e Michael têm medo de bicho-papão. É inconcebível que alguém, em pleno século XX, tema um ser mitológico difundido ainda na Idade Média para assustar crianças gulosas.
Não bastasse a banalidade do filme, há mais uma decepção. Para aqueles que confiaram nos releases, que proclamavam a suprema originalidade do filme, é bom lembrar que os diretores e roteiristas Daniel Myrick e Eduardo Sanchez estão sofrendo um processo por terem supostamente plagiado o filme ‘‘The last broadcast’’, de 1998, ainda não lançado no Brasil. Além disso, estão sendo acusados pelas milhares de seitas pagãs existentes nos Estados Unidos por reafirmar o milenar preconceito contra as bruxas. Correm o risco de perder em indenizações a fortuna arrecadada com a mesma rapidez com que a ganharam.
O único mérito do filme, por assim dizer, é a abençoada ausência de músicas de mau gosto que geralmente infestam este gênero, e a certeza, quando sobem os créditos, de que não haverá uma continuação.
Ou será que...?

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