A brutalidade do ato
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de agosto de 2007
Marcos Losnak<br> Especial para a Folha2 
O século 20 representou um verdadeiro celeiro de estilos, escolas e movimentos artísticos. As artes plásticas, em especial, experimentaram uma verdadeira explosão de rotas. Se por um lado grande parte dos artistas se engajou em determinado estilo ou movimento, por outro uma parte restrita traçou caminho próprio. Este é o caso do pintor irlandês Francis Bacon (1909 - 1992).
Completamente autodidata, Francis Bacon criou uma obra única alimentada por uma obsessão furiosa. Construir uma arte radicalmente personalizada seguindo, ao mesmo tempo, as tradições estéticas. Com telas perturbadoras, jogou novos e incômodos dados no campo da pintura figurativa.
Pintando basicamente retratos, Francis Bacon levou a figura humana ao limite de sua dissolução, em sua distorção. Com traços violentos, elevou a convulsão dos músculos a uma abordagem estética. Utilizando pincéis, dedos e panos, procurava desnudar o corpo humano para revelar a violência presente em seus atos: ''O que eu pretendo fazer é distorcer o objeto até um nível que está muito além da aparência, mas, na distorção, voltar a um registro da aparência.''
Uma dimensão abrangente do universo de Francis Bacon está em ''Entrevistas com Francis Bacon'', livro de David Sylvester que acaba de ganhar nova edição pelas mãos da Editora Cosac Naify. A obra reúne nove longas entrevistas realizadas pelo crítico David Sylvester entre 1962 e 1986, parte delas veiculadas BBC de Londres. Nelas o pintor realiza um rico inventário de sua obra. Fala sobre seus objetivos estéticos e seu processo criativo.
O livro oferece a oportunidade do leitor entrar em contato com o testemunho de um artista sobre todo o processo de criação e realização de uma obra estética. Algo descortinar tudo aquilo que antecede ao quadro concluído. Algo como apontar para tudo aquilo que acontece antes da tinta secar. As idéias que precedem a forma. Os sentidos que compõem o conteúdo. Em síntese, a arte do ponto de vista do criador: ''Procuro apenas fazer com que as imagens sejam, tanto quanto possível, fiéis a meu sistema nervoso. Eu nem sei o que quer dizer a metade delas.''
Nas entrevistas, Bacon é categórico em afirmar que sua pintura não possuía o interesse de dizer alguma coisa. Não pretendia ''dizer'' algo, seu objetivo era ''fazer'' alguma coisa. Seu grande empenho estava em fazer, não em dizer. Mesmo consciente de seus interesses, elegia o acaso como principal componente de suas obras.
Francis Bacon nasceu em Dublin. Até a adolescência viveu entre a Irlanda e a Inglaterra. Começou a pintar com 20 anos de idade e todos os quadros que criou até os 35 anos foram destruídos. O próprio pintor colocou fogo nas telas. Essa prática se prolongou por toda sua existência. Quando não considerava o quadro bom, acendia um fósforo.
Uma das características de Bacon foi pintar corpos e retratos masculinos. Quase toda totalidade de seus quadros são formados por retratos e imagens masculinas. ''Entrevistas com Francis Bacon'' revela como a fotografia foi um elemento determinante em sua obra. Para compor suas pinturas não utilizava modelos ao vivo. Preferia fotografá-los e pintar a partir de fotos. Gostava de trabalhar sozinho, sem presença do modelo, apenas a presença da imagem do modelo. Não gostava de praticar ''sua violência'' na presença deles, optava para fazê-la às escondidas na tentativa de registrar as distorções da própria realidade: ''A obsessão é justamente esta: como posso fazer essa coisa com o máximo de semelhança, da maneira mais irracional possível? Que não se trate somente de reconstituir a aparência da imagem, mas reconstituir todas as áreas de sentimentos por ela inspirados.''
A estética de Francis Bacon grita que toda forma traz dentro de si a sua deformidade. Do mesmo modo que um veloz leão caçando pelas savanas traz dentro de si a lentidão de sua velhice: ''A fonte do desespero é a absoluta consciência de saber que é impossível realizar as coisas; dessa maneira eu posso, por assim dizer, fazer qualquer coisa. E, a parir dessa qualquer coisa a gente vê o que acontece.''
Fragmento de Entrevistas com Francis Bacon, de David Sylvester
Há um paradoxo na sobrevivência das obras de arte, quero dizer na nossa sociedade, cuja arte não observa um ritual e não tem um propósito didático. A motivação para fazer é o fazer, a emoção de resolver problemas, mas problemas de uma espécie que só podem ser resolvidos pelo fazer; assim, no final do processo, restará uma coisa, o resíduo de uma atividade. Bem, o artista, uma vez de posse desse resíduo, poderia destruí-lo, mas em geral ele prefere deixar que ele continue existindo. (...)
Talvez eu carregue esse sentimento de morte o tempo todo. Porque se a vida emociona, o oposto dela, como uma sombra, a morte, também deve emocionar. Talvez não emocione, mas a gente tem consciência da morte da mesma maneira que tem consciência da vida, a gente tem consciência dela como se vida e morte fossem as duas faces de uma mesma moeda. E, de qualquer modo, tenho consciência disso com relação aos outros e com relação a mim. Sempre me surpreendo quando acordo de manhã.
Serviço:
- Livro ''Entrevistas com Francis Bacon'', de David Sylvester. Editora Cosac Naify, tradução de Maria Teresa Resende Costa, 146 reproduções em preto-e- branco, 208 páginas, R$ 49,00.


