A bomba da violência estoura nas escolas
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segunda-feira, 12 de maio de 2003
Ana Setti<br> Reportagem Local 
Edina Maria Silva de Paula: ''O papel da família é indelegável; à escola cabe a complementação''
Naquele colégio estadual em um bairro de Londrina, a diretoria proibiu o uso de bonés para alunos de 10 e 11 anos de idade. Motivo? Segurança, já que nas imediações da escola, as crianças correm o risco de serem intimidadas a ''pagar pedágio'' a jovens desocupados que por ali perambulam e que ''exigem'' desde bonés, o item mais procurado, a tênis ou mesmo uma caneta diferente, encontrada na mochila, que eles se sentem à vontade para ''vistoriar''.
Dentro da escola, pré-adolescentes de 12, 13 anos também estão no foco da violência, só que não como vítimas. Agressões entre eles e contra professores e diretores vêm se tornando comuns. Chamar a professora de ''vagabunda'', porque ela está exigindo o cumprimento de uma tarefa ou humilhar o professor, que é adotado, revelando em público que ''eu não sou como você, que foi abandonado pela mãe!'' são alguns exemplos. Mas a agressão pode ir mais longe, chegando à ameaça: ''Vou te pegar lá fora!''; ''Vou te matar''; ''Fica esperta, professora, que depois ele sai e passa na tua casa...'', referindo-se, no caso, a um parente que está preso e que é reconhecidamente perigoso.
''O que está acontecendo?'', pergunta-se assustada a supervisora pedagógica do colégio. ''Os jovens vêm à escola para aprender, para se divertir, para se socializar, não para ficar com medo.'' Mas os sinais de desestruturação psicológica - que gera comportamentos violentos ou de risco - continuam surgindo e cada vez mais cedo. A aluna de 15 anos conta que na escola há três garotas, entre 12 e 13 anos de idade, já grávidas. Falta de informação? ''É irresponsabilidade mesmo!'', responde rápido. Antes da responsabilidade, no entanto, até para fundamentá-la, são necessários valores - respeito, moral, ética. ''O jovem precisa saber que não está sozinho no mundo e que é necessário ter respeito pelo outro'', comenta a supervisora. Dar limites também se revela fundamental, ''porque, mais cedo ou mais tarde, a vida vai fazê-lo aprender a lidar com um não'', complementa.
Limites e valores remetem à educação. Mas a quem cabe a tarefa de educar crianças e jovens: à família ou à escola? A pergunta se justifica porque, cada vez mais, comportamentos violentos e desrespeitosos, parecendo-se a bombas-relógio, estão sendo literalmente ''deixados'' pelas famílias na escola, que se vê despreparada para desativá-los. A escola, contudo, é apenas a primeira frente dessa batalha. A omissão e a permissividade dos pais vêm gerando ''verdadeiros tiranozinhos'', como frisa a promotora da Vara de Infância e Adolescência de Londrina, Edina Maria Silva de Paula, com os quais a sociedade vai ter de lidar, mais cedo ou mais tarde. Pode ser bem mais cedo do que se pensa, lembra a promotora, questionando: ''Será que uma criança de 9 ou 10 anos de idade não se sente o dono do mundo com uma arma na mão?''
''Atendi recentemente um menino de 13 anos de idade, preso por tráfico de drogas'', conta Edina, ''e, em nossa conversa, ficou claro que ele não achava ter feito nada demais''. A mãe dele mostrava-se indignada com a autuação e sua argumentação, para justificar a ação do filho, era mais um lamento: ''Mas ele leva dinheiro para casa!'' Frente a essa distorção de valores que, como avisa, vem se acentuando nos últimos dois anos, a promotora mostra-se categórica na questão da divisão das responsabilidades em relação à educação dos jovens. ''O papel da família é indelegável'', afirma, '' à escola cabe a complementação''.
Sob seu ponto de vista, a mais importante contribuição da família, em especial da mãe, na educação dos jovens, está na criação de vínculos emocionais. ''Se a criança não consegue atenção e afeto dentro de casa e não tem noção de limites, vai se tornar presa fácil de traficantes''. Os criminosos com certeza vão criar os vínculos emocionais e disciplinadores de que essa criança precisa, ''só que também vão matar'', complementa.
As escolas tentam suprir as carências familiares de seus alunos, até mesmo estendendo uma ponte para os pais, como no evento ''Família na Escola'', que integra o calendário escolar oficial das redes de ensino municipal e estadual, realizado no mês passado. Com isso, visam estimular uma maior participação da família nas questões relativas aos jovens. A tentativa é boa e tem sido planejada e executada por professores e alunos com carinhoso desvelo. Só que a receptividade... Naquela escola de um bairro de Londrina, por exemplo, com 1.400 alunos, compareceram ao evento todo, que durou 4 dias, apenas 20 pais! Ao observar a realidade de hoje, sob o prisma de quem atua como promotora há 20 anos, 13 dos quais na Vara de Infância e Juventude de Londrina, Edina chega a uma conclusão desalentadora: ''Está faltando mãe para esta humanidade!''


