O firmamento hollywoodiano não fecha 1996 somente com objetos voadores não identificados ou alienígenas invasores. O ano termina registrando também a maior explosão inflacionária no salários de astros e estrelas de que se tem notícia. Faz sentido, por um lado. A nova Hollywood, aquela que está sendo reconstruída, sai em busca da grandiosidade perdida, da reafirmação de seu status de inimitável usina de sonhos. Um status colocado em perigo, nos anos 60 e 70, pela emergência de um cinema independente e engajado; nos anos 80, pela concorrência do vídeo e pela ingerência de financistas de Wall Street nos estudios.
Mas apesar de todas essas mortes anunciadas, a capital mundial do cinema pode constatar que está muitíssimo viva, e potencialmente mais forte do que jamais esteve. E uma das medidas hoje praticadas visando um reencontro com a idade de ouro de há cinquenta anos é justamente um retorno à valorização daquilo que foi a maior sustentação de Hollywood: o star system, que agora se pretende a ponta de lança da reconquista do tempo perdido.
Por outro lado, se na avaliação dos ganhos fabulosos de parte privilegiada do grande elenco hollywoodiano prevalecer o critério de justiça, então a coisa muda de figura. Salário é recompensa, como ensinam os manuais primários de economia. E recompensa se dá a quem de fato merece, logo...
Há seis anos, eram apenas oito. Há três, o número subiu para 10. Em 1996, a lista chegou aos 25, atores e atrizes (apenas quatro) recebendo acima de 10 milhões de dólares por filme. Não estão computados os valores obtidos através de percentuais em bilheteria ou por outras vias - merchandising, por exemplo. É salário por apenas um único filme, salário que os 120 filmes de Marcelo Mastroianni, juntos, não conseguiram dar ao ator, um dos maiores deste século.

U$ 20 milhões

q Jim Carrey - Carreira fulminante. De U$ 1 milhão por ‘‘O Máskara’’ a 20 vezes mais por ‘‘O Pentelho’’, título brasileiro grosseiramente dúbio e involuntariamente sábio. Nas bilheterias americanas ‘‘O Máskara’’ fez U$ 100 milhões e ‘‘Pentelho’’ apenas 60. O público pode ter seus momentos de fraqueza mas não é burro. O fenômeno está neste momento sendo repensado mais pelos financistas do que pelo staff cinematográfico.
q Tom Cruise - Arriscou o pescoço e a conta bancária em ‘‘Entrevista com o Vampiro’’, mas se deu bem mesmo dividindo a tela com Brad Pitt. ‘‘Missão Impossível’’ foi um projeto muito pessoal: além de bancar boa parte da produção, colocou Brian De Palma na direção. Ninguém se arrependeu. Seu novo filme é uma comédia sobre esportes , ‘‘Jerry Maguire’’, prevista para estrear nestes por esses dias. A mulher, Nicole Kidman, está com carreira própria e pode entrar na lista em breve.
q Harrison Ford - Longe de Spielberg sua carreira andou meio sem rumo, mas acabou acertando o passo com ‘‘O Fugitivo’’. Pediu e recebeu da Columbia a quantia em questão para interpretar ‘‘Devil’s Own’’, ao lado de Brad Pitt, que ganhou a metade. Ford continua um dos três americanos mais rentáveis mundo afora.
q Arnold Schwarzenegger - É o único da lista que já está ganhando U$ 5 milhões a mais: a Warner quer tê-lo de qualquer maneira como um dos vilões no próximo ‘‘Batman’’. Seu penúltimo filme lançado no Brasil, ‘‘Queima de Arquivo’’, foi sucesso relativo nos Estados Unidos e meio fracasso por aqui. ‘‘Herói de Brinquedo’’ é a sua hora do recreio. Ele se diverte, o público se diverte com ele, e assim ninguém se machuca.
q Sylvester Stallone - Tem uma grande e fiel audiência, e não é tão precário quanto aparenta. Precisa ter mais jogo de cintura e relaxar. É o que falta em ‘‘Daylight’’. Mas a Fox parece que quer o ator assim mesmo, de qualquer maneira. As partes assinaram um contrato que dá U$ 60 milhões de dólares ao ator por três filmes. Mas atenção: vem aí ‘‘Copland’’, reunindo Stallone, De Niro, Harvey Keitel e Ray Liotta. Além da imponderável parceria, consta que os dois aceitaram trabalhar a preço de banana por causa do ótimo roteiro.
q John Travolta - O mais recente membro do clube dos U$ 20 milhões. Sua reincorporação à elite salarial é espantosa, um verdaderiro milagre. O santo chama-se Quentin Tarantino e o veículo, ‘‘Pulp Fiction’’. Acaba de estrear nos Estados Unidos - ainda sem resultados - seu último trabalho, ‘‘Michael’’, mais uma comédia romântica de Nora Ephron. Travolta ataca de anjo, interferindo na relação entre William Hurt e Andie MacDowell. Há pouco o ator andou às turras com Roman Polanski.

U$ 18 milhões

q Michael Douglas - Bem que tenta manter-se , mas está cada vez mais difícil. Depois de ‘‘Instinto Selvagem’’, todos os seus filmes tiveram discreto resultado no box-office. Sua cotação vem caindo e ninguém sabe por quanto tempo mais o ator ficará no pelotão principal.
q Mel Gibson - Ainda saboreando o sucesso de ‘‘Braveheart’’, nas bilheterias e na Academia, sua posição no momento é sólida, e deve permanecer assim por hora. As apostas são todas para ‘‘O Resgate’’, com estréia brasileira em janeiro. Gibson é um rico executivo que sai atrás do sequestradores de seu filho.
q Tom Hanks - É voz corrente em Hollywood que tudo o que o ator toca vira ouro. Dois Oscars, dois campeões de rendas (‘‘Forrest Gump’’ e ‘‘Apollo 13’’) fizeram de vez sua fama e fortuna. Acaba de estrear na direção em ‘‘That Thing you Do!’’, também escrito e interpretado por ele. Um filme-nostalgia, idos de 64, conjuntos de rock.
q Robin Williams - A criança-prodígio mais bem paga de Hollywood. E não é para menos: nos ultimos dez anos, seis de seus filmes ultrapassaram os U$ 100 milhões de dólares. É um record, sem dúvida. Bom comediante, seu complexo de Peter Pan começa a irritar.

U$ 17 milhões

q Bruce Willis - O ator mais duro de liquidar, na atualidade. Sua sobrevida em papéis diversos é notável. E sua intimidade com a violência vai se tornando um hábito rentável . Para ele, evidentemente. Seu melhor trabalho recente é em ‘‘Os Doze Macacos’’, onde faz uma espécie de exterminador do futuro.

U$ 15 milhões

q Eddie Murphy - Quando todos o julgavam morto e enterrado, eis que surge o escatológico e grosseiro ‘‘O Professor Aloprado’’ para desviar o ator de sua rota de auto-destruição. ‘‘Um Vampiro no Brooklin’’, seu filme anterior, é uma das piores coisas já vistas numa tela de cinema. Seu senso de humor é muito limitado, embora bem pago.

U$ 13 milhões

q Kevin Costner - ‘‘Waterworld’’ foi responsável por seu desalojamento de uma posição mais confortável, obtida com ‘‘Dança com Lobos’’. Seu último filme, a comédia romântica ‘‘Jogo de Paixão’’, não é grande coisa mas aliviou um pouco o horizonte de Costner. Uma incógnita.

U$ 12 milhões

q Nicolas Cage - Uma ascensão merecida. Em 95, recebia por volta de U$ 3 milhões por filme. Mas apareceram ‘‘Despedida em Las Vegas’’(com um Oscar) e ‘‘A Rocha’’, e então tudo mudou.
q Demi Moore - A primeira mulher a aparecer na lista, e ainda em décimo-quinto. Anda mal das pernas (sic). Seu retrospecto recente por pouco não a tira de vez do ranking. Fica na base do voto de confiança, já que em sã consciencia não se pode avalizar ‘‘A Letra Escarlate’’, ‘‘A Jurada’’ e ‘‘Striptease’’, três desastres.
q Kurt Russell - Outro renascido das cinzas. E por méritos principalmente de negociação. Há três anos exigiu U$ 7 milhões para fazer ‘‘Stargate’’. Todo mundo achou um absurdo mas as produção acabou dando. O filme estourou, e daí aos U$ 12 milhões para ‘‘Fuga de Los Angeles’’ foi fácil. No momento ninguém diz nada.
q Denzel Washington - As críticas mais frequentes dizem que ele faz sempre o mesmo papel. Pode ser, mas tem talento. Sua parceria com Meg Ryan em ‘‘Sob Fogo Cruzado’’ deu certo e gerou boas rendas. Por enquanto tem cacife para pedir - e conseguir - o que pede. Como fez para atuar no thriller ‘‘Fallen’’.

U$ 10 milhões

q Sandra Bullock - Outra apanhada em fogo cruzado, mais ou menos como Demi Moore. Como ‘‘A Rede’’ deixou a desejar, logo se disse que as muitas esperanças a partir de ‘‘Enquanto Você Dormia’’ eram só isso, esperanças. Está faltando o próximo movimento.
q Whoopi Goldberg - A única mulher com veia (e boa) de comediante. De vez em quando tenta um papel mais sério, como o mais recente , sob a direção de Rob Reiner. Não é o seu forte, apesar do empenho. Como em ‘‘Somente Elas’’.
q Jack Nicholson - Rico a ponto de só atuar nos filmes que lhe interessam, o ator vem assumindo deliberadamente um componente de canastrice que às vezes irrita. Está no elenco do novo Tim Burton, ‘‘Mars Attacks’’, comédia de ficção-científica. Anda trabalhando também por percentagem de bilheteria, além do salário. Ficou tão famoso que se permite esta negociação paralela.
q Brad Pitt - Caso de ascensão meteórica. Descoberto em ‘‘Thelma e Louise’’, a partir daí o ator somente teve bons momentos. Depois de ‘‘Kalifornia’’ , ‘‘Lendas da Paixão’’ e ‘‘Seven’’, seu status em Hollywood mudou substancialmente.
q Robert Redford - Quem tem carisma e talento pode qualquer coisa. Até mesmo interpretar um papel deslavadamente romântico ao lado de Michele Pffeifer em ‘‘Íntimo e Pessoal’’. Aos 59 anos, a legenda permanece bem viva. Ele merece cada centavo.
q Julia Roberts - Sem um grande sucesso recente e com a concorrência de Sandra Bullock, a atriz precisa de um novo ‘‘Uma Linda Mulher’’ para dar novo alento à carreira.
q Steven Seagal - Surge sempre como uma alternativa possível a Stallone e Schwarzenegger, mas tudo poderia melhorar para ele e para o público se deixasse de fazer sempre as mesmas coisas.
q Wesley Snipes - Por enquanto é uma espécie de desafiante, mas pelo sucesso que vem obtendo logo passa a favorito. Vem aí uma prova de fogo, o thriller erótico de Mike Figgis, ‘‘One Night Stand’’.

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