O futebol, conforme atestam pesquisas recentes, já era jogado no Brasil, em campos de várzea, antes que o inglês Charles Miller trouxesse de seu país as bolas do tamanho e peso oficiais e começasse, no início do século passado, a organizar os times de São Paulo, criando o histórico Clube dos 11.
Charles Miller era casado com uma pianista, Antonieta Rudge, ela também pioneira formou o primeiro trio feminino de pianos de que se tem notícia. E viajou com o marido para a Europa, tocando música brasileira.
Futebol e música estiveram ligados, ao longo do século 20, e assim continuam. Compositores falam de futebol, explicitam suas paixões, torcem em sambas e marchas. Jogadores compõem e cantam Pelé chegou a gravar a duas vozes, com Elis Regina, músicas de sua autoria.
A música é, de fato, a única expressão artística nacional que cuida sempre da outra grande paixão nacional, o futebol. O cinema tem poucos títulos em que o futebol seja importante; o teatro, menos ainda. A literatura quase não aborda o esporte e as artes plásticas, fotografia de fora, dão pouca bola à bola.
Não existia, ainda, um livro que contasse a história da ligação entre o esporte e a canção. Nascido em Três Lagoas (no atual Mato Grosso do Sul) e radicado em Florianópolis, Santa Catarina, o jornalista Beto Xavier encarregou-se de corrigir a falha e acaba de concluir o livro ''O Futebol no País da Música'', ainda sem editora, trabalho iniciado nos anos 80, pelo prazer de juntar as duas coisas de que mais gosta.
Beto devorava os números da ''Manchete Esportiva'' que o pai colecionava e exibe como troféu um exemplar do álbum de figurinhas ''Craques da Pelota'' de 1953, estampas devidamente coladas ao lado das minibiografias dos artistas da bola. O pai incutiu-lhe, também, o amor pela música popular. Beto Xavier, hoje, é apresentador mestre-de-cerimônias de diversos festivais de música pelo interior do País. De noite, o palco. De manhã, a pelada, naturalmente.
''Da mesma forma que, na concentração, os jogadores batem um samba, os músicos, quando não estão no palco, unem-se no campo, jogando bola'', diz o jornalista Chico Buarque viaja com o uniforme de seu time, o Polytheama, e arma peladas de madrugada, depois dos shows, com gente do lugar por onde viaja. ''O João Bosco acha que um compositor está sempre procurando alguém para tabelar: ele compõe, o outro canta'', lembra Beto Xavier.
''Futebol e música estão de tal forma ligados que todo mundo sabe que o Chico Buarque é Fluminense, que o Martinho da Vila e o Aldir Blanc são Vasco, que o João Nogueira era Flamengo, como o Jorge Ben Jor'', relaciona. ''A idéia de escrever o livro veio, aliás, por causa do Ben Jor'', conta. ''Foi ele o primeiro compositor a criar um mito futebolístico, com 'Fio Maravilha', que gravou em 1972: da noite para o dia, o Fio tornou-se uma figura nacional.''
Beto Xavier acredita que, com ''Fio Maravilha'', o futebol mostrou-se, também, um filão comercialmente farto para os compositores. ''Antes, havia músicas que falavam de futebol basta lembrar os hinos dos clubes cariocas, compostos pelo Lamartine Babo'', diz. Mas foi depois do ''Fio Maravilha'' que o futebol começou a aparecer de maneira mais explícita, até nas capas dos discos'' antes disso, lembra, os Demônios da Garoa haviam gravado uma canção feita para a Copa do México, em 1970, chamada ''Guadalajara''.
A inspiração de ''Fio Maravilha'' aquele ''gol de anjo, verdadeiro gol de placa'' veio de uma amistoso entre o Flamengo e o Benfica, em março de 1972. Fio fez mesmo o gol de anjo, deslumbrante. O técnico era o Zagallo e Fio estava no banco. A torcida gritou seu nome, ele entrou aos 33 minutos do segundo tempo e fez o gol.
Dos times brasileiros, o Flamengo é o mais cantado, de acordo com o levantamento feito por Beto Xavier. Em segundo lugar, vem o Corinthians. A primeira música a tratar diretamente de futebol foi o choro ''1x0'', de Pixinguinha e Benedito Lacerda, de 1919, que foi receber letra 74 anos depois, escrita pelo mineiro Nelson Angelo, que o gravou com participação de Chico Buarque.
O levantamento relacionou 350 músicas que falam, direta ou indiretamente, de futebol do choro de Pixinguinha ao ''Gol Anulado'', de João Bosco e Aldir Blanc; da metáfora política de ''Geraldinos e Arquibaldos'', de Gonzaguinha, a trabalhos de Skank, O Rappa, Engenheiros do Hawaii, Gabriel o Pensador; do choro-canção ''Falando de Amor'', de Tom Jobim (''... e eu esqueço até do futebol'') à obra maior juntando as duas artes, o samba ''O Futebol'', que Chico Buarque lançou em 1989.
''O Futebol no País da Música'' é um livro de 400 páginas, que reproduz capas de discos e tem capítulos dedicados a Wilson Moreira, Noel Rosa e João Nogueira, ao ''som do Flamengo'', a Moreira da Silva, Adoniran Barbosa e Bezerra da Silva, ao jogadores-cantores, a Jackson do Pandeiro, a Elza Soares, naturalmente.
Sem pretensão didática, em textos curtos e claros, Beto Xavier foi mostrando como música e futebol se casam à perfeição. Em trabalho de menos fôlego, ainda assim precioso, o jornalista e compositor Assis Ângelo editou, no meio do ano, um opúsculo é o autor quem chama assim o livreto de 40 páginas intitulado ''A Presença do Futebol na Música Popular Brasileira'' que está sendo distribuído gratuitamente nas estações do metrô paulista. Enfim, a história começa a ser contada.

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