A boêmia perde a voz
ReproduçãoSílvio Caldas: voz transitando sem derrapar a cada oscilação de letra foi uma de suas marcas registradasAlta madrugada no Rio de Janeiro. No andar acima de uma fábrica de tacos de bilhar ouvia-se o vozeirão. Não havia vedação nem preocupações com a acústica, apenas algumas esteiras de praia na parede e dois microfones. Um para o cantor e outro para o conjunto. Também não havia como errar: a matriz de cera custava muito caro e a música seria gravada uma única vez.
Os estúdios brasileiros do final da década de 20 realmente não ajudavam muito os intérpretes - as gravações ocorriam de madrugada para não haver interferência do barulho da rua. Mas Sílvio Caldas já vinha com certo molejo adquirido em serestas, bordéis e botequins. Enfrentar um microfone não era problema algum. Foi assim que saiu o primeiro disco do Caboclinho Querido, em 1929 na gravadora Brunswick.
Cantar mesmo o rapaz já o fazia desde 1914, aos seis anos. Mas poucos imaginariam uma carreira tão consistente, capaz de ir além de Carlos Galhardo, Francisco Alves e Orlando Silva; de dividir composições com Orestes Barbosa, Noel Rosa e Wilson Batista e de gravar sambas em primeira mão de Ari Barroso e Sinhô.
Um dia, andando pelo Rio, Sílvio Caldas encontrou Noel Rosa. No bate-papo, satirizou a dicção que puxava o S e o X. O compositor da Vila Isabel gostou da brincadeira e juntos fizeram Cabrocha no Rocha, que ironizava a mania.
Sílvio Caldas também sobreviveu às mudanças fonográficas. Seu timbre atravessou ileso à chegada da alta-fidelidade, do som estereofônico, do long-play. Nessa época, nos anos 50, os vozeirões de Orlando Silva e Carlos Galhardo já fraquejavam, e Francisco Alves morreu em 1952.
Intimamente ligada à carreira musical estava a boêmia. Caldas, mesmo famoso, cantava em bares de periferia, ignorava convites financeiramente interessantes em troca de viagens, aventuras, até de simples pescarias. Tudo regado a muito uísque e, durante curto período, morfina. Mesmo assim sua voz mantinha a virilidade.
Já aos 27 anos apresentava os cabelos grisalhos, com os quais ganhou o apelido de Titio. A vida desregrada levou-o a ser chamado de criança por Francisco Alves, que era conhecido por ostentar o dinheiro que ganhava. Caldas reagia dizendo que Alves gravava muita coisa por interesses comerciais, enfim, era um vendido.
Sua carreira só balançou com o surgimento da Bossa Nova, que acabaria reestruturando a música popular e abolindo o dó-de-peito, a empostação operística que caracterizava as interpretações de Sílvio Caldas.
O cantor não assimilou bem as inovações. Achava que os garotos sopravam a nota, cantavam muito parecido com o J.B. da Silva, o Sinhô, que respirava mal por causa da tuberculose. E foram justamente de Sinhô as duas primeiras músicas gravadas por Caldas: Recordar é Viver e Amor de Poeta, uma canção e um samba, ambas recusadas por Mário Reis e Francisco Alves.
Sem anuênciaPosteriormente o cantor reavaliaria a Bossa Nova, mas sem total anuência. Como João Gilberto foi incansavelmente imitado - inclusive pelo próprio Roberto Carlos, que Caldas gravaria posteriormente -, Sílvio Caldas se tornou uma espécie de dinossauro de uma MPB que já não existia. Foi então que começou a anunciar o fim de sua carreira. Várias vezes se retirou de cena. Mas, como dizia Nelson Rodrigues, Sílvio Caldas só pararia de cantar na morte, ocorrida na última terça-feira de insuficiência pulmonar, aos 89 anos.
Talvez os versos de influência parnasiana, como Tu pisavas nos astros distraída, que tanto alegravam Caldas - e arrancavam elogios de Manuel Bandeira - soem medievais em tempos de letras vulgares. Talvez o dó-de-peito se acomode com resignação no passado. Mesmo assim, as interpretações de Sílvio Caldas ainda merecem atenção pela técnica, pelo timbre característico, pela respiração perfeccionista, pela voz transitando sem derrapar a cada oscilação da letra. Características que atravessaram décadas, fizeram história e se tornaram uma página à parte na música popular brasileira.





